




Apresenta:

      Digitalizao: Eve Dallas











     Para a LU, uma fada de carne e osso.













     Luna estava desolada, de nada adiantaram suas lgrimas melodramticas. Djalma, professor de Geografia sem alma, sem sentimento (e sem cabelo no cocuruto), no
se abalou nem um pouquinho com elas e no lhe deu o meio ponto pelo qual ela tanto implorou. Resultado imutvel dessa histria: era sua segunda nota vermelha no
bimestre, o que lhe renderia um castigo daqueles, como sua me j alertara. Ficaria sem festas, sem cinema, sem praia e sem msica por tempo indeterminado. Quer
tragdia maior do que essa?
     O pior ainda estava por vir. No dia seguinte, Luna teria prova de Matemtica - que simplesmente odiava - e precisava estudar muito, muito mesmo, para se dar
bem. Caso contrrio, ela teria sua terceira nota vermelha no boletim, o que significava um aumento drstico do j terrvel castigo: televiso, shopping e computador
tambm seriam cortados de sua vida. Ou seja, tortura geral, crueldade total.
     No bastasse o drama que vivia com as notas, Luna soube que o fofo do Pedro Maia, dono dos clios mais enormes, mais lindos e mais charmosos do planeta, ficou
com a metida da Lara Amaral, uma menina que se achava tudo de tudo, mas que era nada de nada. Para piorar, a fofoqueira da Bia Baggio (que em algumas semanas era
sua melhor amiga, em outras sua pior amiga) espalhou para toda a escola que Luna tinha inveja de sua criatividade. S porque seu blog tinha uns gifs animados parecidos
com os do blog dela. Definitivamente, aquele dia no era dos mais felizes na vida de Luna.
      noite, enquanto devorava nmeros, clculos e frmulas, a menina sabia que em pouco tempo sua me chegaria do trabalho e lhe daria uma bronca, a nonagsima
stima da semana, ao constatar que seu quarto continuava o retrato do caos, como se por l tivesse passado um furaco dos grandes. Roupas amontoadas em cima da cmoda,
da escrivaninha e no cho, meias e tnis espalhados por todo canto, CDs fora das caixas, papis de bala pelo colcho, prendedores de cabelo embaixo da cama, livros
abertos, lpis, canetas e revistas adolescentes por todo lado... Por conta da baguna (e tambm do alerta do castigo-pedreira), o clima entre ela e sua me no estava
nada bom e a tendncia era piorar.
     Foi o que aconteceu.
     - Ah, no, Luna! No acredito que voc ainda no arrumou esse quarto! Est parecendo um chiqueiro!
     - Eu tenho que estudar, me!
     - Arruma e estuda depois! E diminui esse som!
     - Msica alta me ajuda a concentrar.
     - Conversinha! Diminui esse barulho horroroso e arruma essa baguna j!
     - Mas tem muita coisa para arrumar, vai demorar e atrapalhar meus estudos! E voc no quer que eu me d mal na prova de Matemtica, n?
     - Espero que voc se d maravilhosamente bem nessa prova, porque trs notas vermelhas no bimestre  demais para a minha cabea! E voc sabe o que vai acontecer
se seu boletim vier com trs notas vermelhas, no sabe?
     -        Sei - rosnou. - Vou entrar num castigo desumano, cruel, o pior castigo j dado a algum desde que o mundo  mundo.
     Luna levantou-se e, irritada, emburrada e cheia de m vontade, comeou a arrumar a baguna sob o mal-humorado olhar materno.
     -        No tenho medo de cara feia, no, viu? Cara feia para mim  fome - disse sua me antes de sair do quarto.
     Foi s ela bater a porta para a menina logo parar a encenao.
     Luna - garota da Zona Sul viciada em fruta-do-conde e pingue-pongue e alucinada pela lua (Luna significa "lua" em italiano, e ela sempre adorou isso) - era 
apaixonada por seu quarto, mas nunca gostou de arrum-lo. Costumava dizer que se entendia na sua baguna. Seu quarto no era o quarto que se espera de uma menina 
de 13-quase-14 anos. Nada de rosa, nada de cortininha meiguinha, de coisinhas fofinhas e bonitinhas de pelcia. Tudo l era multicolorido e pintado  mo por ela, 
que, aos trs anos, j mostrava aptido para lidar com os pincis.
     As paredes eram decoradas pelas telas que pintava e o banquinho de madeira que ficava ao lado de sua cama tambm era "Lunamente" colorido, como ela gostava 
de dizer. Tudo tinha seu toque de artista: a cama, o armrio, a caneca, at o teto... A adolescente adorava pintar o sete no quarto que no era quarto, era a Casa 
da Luna, como frisava a placa pintada por ela pendurada na porta. A porta, alis, era cheia de luas. Crescentes, minguantes, cheias... De vrias formas, cores e 
tamanhos.
     Depois do jantar, por volta das oito e meia, ela conectou-se para um animadssimo bate-papo virtual com Nina Dantas (sua melhor amiga nmero dois). O assunto 
era Lara Amaral. Como a Lara Amaral era uma equivocada, sem noo da vida, como a Lara Amaral era falsa e mentirosa, como a Lara Amaral era metida, como a Lara Amaral 
conseguiu ficar com o gato da escola e, por isso, ficou ainda mais metida, como a Lara Amaral parecia um pequins subnutrido. Da para as duas comearem a brincar 
de dar a Lara Amaral apelidos asquerosos foi um pulo, mas bem nessa hora sua me entrou no quarto sem bater, uma ofensa gigante para Luna.
     - Eu vou desligar esse computador agora se voc no arrumar esse quarto decentemente e estudar.
     - Invaso de privacidade  crime! - chiou. - Eu estou fazendo a digesto, no d para estudar de barriga cheia! Estou aproveitando esse tempo para ter uma conversa 
importantsima com a Nina, no t vendo?
     - Importantsima  a prova de amanh. Voc j terminou de estudar?
                            
     - No... - disse Luna, cabisbaixa.
     - J arrumou o quarto?
     - No...
     - Ento desliga esse computador agora!
                            
     - Ainda no terminei com ela. T quase acabando, j desligo.
     - Desliga agora, Luna. Eu estou mandando! Ou voc quer que eu entre nessa conversa e deixe um recadinho para a Nina dizendo que voc precisa desligar para levar 
uma bronca da me?
     Luna engoliu a raiva, inventou uma desculpa para a amiga e desligou o computador.
     -        Voc tem quase 14 anos, filha! Assim no d! Eu tenho uma vida atribulada, no posso ser sua bab, ficar em cima o tempo todo para ver se voc est 
fazendo as coisas direito. Voc j  uma moa, quase uma adulta, precisa aprender a ter responsabilidade!
     - Eu sou responsvel!
     - No sei em que planeta! Faz tudo errado, est virando uma pssima aluna, ficou respondona, desobediente, agressiva... e agora deu pra brigar comigo, logo 
comigo! A gente sempre se deu to bem!
     - Mas voc t muito chata com essa presso em cima de mim.
     - Eu no estou chata, eu estou preocupada. Voc quer repetir o ano? Ficar com os pirralhos em vez de ficar na mesma sala das suas amigas?
     - Eu no vou repetir, depois eu recupero!
     - Recupera agora, Luna! Quero ver voc meter a cara nos livros agora!
     - T - resignou-se a menina, tristonha.
     - Mas antes arruma o quarto.
     - T! - disse ela, agora emburrada.
     Luna no arrumou, apenas dobrou umas roupas que estavam jogadas em cima da cmoda e deixou-as por l mesmo. O livro de Matemtica... bom, ela achou por bem 
estudar. No queria ficar sem festa, sem cinema, sem praia, sem shopping, sem msica, sem computador e sem televiso. Isso seria pssimo!
     Passaram-se trs horas. Sua me bateu  porta e entrou:
     - Voc no arrumou nada, Luna? No  possvel!
     - Como no arrumei, me? Dobrei vrias roupas que esto em cima da cmoda, no t vendo? Que saco!
     - Luna!
     - Ah,  isso mesmo! O quarto  meu, a baguna  minha, voc no mora no meu quarto, mora? Sabe por que voc se preocupa tanto com ele? Porque voc  uma chata 
que no tem o que fazer da vida.
     Silncio. Silncio desconfortvel.
     - Voc era to boa filha, Luna... to boa filha... - desabafou sua me, quase chorando, saindo do quarto. - Onde foi que eu errei? Onde foi que eu errei?
     No era uma pergunta para ser respondida, Luna sabia. Sua me (que, diga-se de passagem, tinha, sim, o que fazer da vida, trabalhava numa agncia de publicidade 
e era uma tima profissional) saiu com a maior expresso de decepo e desgosto que ela j vira. Por sua causa.
     Que chato. Chato. A menina no queria magoar sua me, mas acabou sendo dura demais com ela. Assim que ficou sozinha de novo, sentiu-se culpada, incompetente, 
m filha, m aluna, m pessoa, irresponsvel... tudo de ruim. E ainda tinha sido uma grossa com a pessoa que mais amava no mundo. Ficou triste  bea. E chorou baixinho. 
Baixinho e rapidinho, pois logo sentiu-se na obrigao de enxugar as lgrimas para voltar a estudar.
     L pela meia-noite, as plpebras pesaram e ela caiu no sono com o livro de Matemtica no colo.






     Entrar na vida das pessoas era a pior parte do trabalho para Tatu. Ela ficava sem jeito na hora de se apresentar, o primeiro contato sempre assustava, mesmo
sem querer, e isso a deixava bem aborrecida. Naquele dia, depois de dcadas e dcadas de sono profundo no mundo das fadas, tinha uma misso: resolver mais um problema
juvenil. Como de praxe, entrou em sonho na vida da pessoa escolhida, aquela que iria ajud-la em sua incumbncia na Terra.
     Claro que a escolhida era Luna, que a essa altura sonhava com clculos para a prova do dia seguinte, quando Tatu entrou no meio de uma equao, toda rebolativa.
Como era exibida aquela fada!
     "Oi, Luna, tudo bem? Muito prazer, eu sou a Tatu."
     "Tatu? Fala srio! Que nome  esse?"
      "Meu nome mesmo  Ortatulina, Tatu  apelido."
     "Melhor. Mas por que Tatu? Tatu  um bicho to feio..."
     ", mas eu sou uma fada linda, que entrou no seu sonho para te acordar."
     "Fada? Eu no acredito em fada. E, na boa, no te acho nada linda."
     "Mesmo assim, sua mal-educada, voc precisa acordar Para ter uma conversa sria comigo."
     "Eu no acredito em fada, portanto, no converso com fada."
     "Nem em sonho?"
     "Nem em sonho. Agora pode ir embora, por favor? Preciso dormir, tenho prova importante amanh e voc est atrapalhando meu sono. E meu sonho!"
     "Voc vai tirar sete, no vai ser mais uma nota vermelha no boletim. Pronto, d para acordar agora?"
     "No! Como voc  insistente! Vai embora!"
     "'Vai embora?' Por isso que sua me te acha uma grossa!"
     "Grossa? Grossa  voc! Tchau!", gritou Luna, irritada.
     "Que 'tchau', o qu? Eu no posso ir embora! Droga! Sempre esqueo o que o Livro das Fadas diz para fazer com gente que reage mal at nos sonhos... Como  mesmo? 
Sinsalabim... Bimbimbim! No, no  nada disso! Coisa ridcula, sinsalabim bimbimbim! De onde eu tirei isso?"
     "Ei! Pra de falar! Eu quero voltar a sonhar com nmeros, estava bem melhor. Chispa da!"
     "No posso chispar, j no disse? Voc  a pessoa escolhida para me ajudar na minha misso, precisamos conversar urgentemente!"
     "Eu no acredito que voc ainda t falando! Sai do meu sonho, me deixa dormir. Fadas no existem!"
     "Existem, sim, sua malcriada! Olha eu aqui!"
     "Ah, ? Ento me belisca! Se voc for de verdade, eu acordo e a gente conversa."
     "Conversa tranqilamente?"
     "Tranqilamente."
     "Promete?"
     "Prometo."
     Tatu tascou-lhe um belisco de respeito no brao (ela adorava essa parte, era comum os escolhidos pedirem para ser beliscados. Vai entender os humanos...). 
Luna acordou imediatamente e deu de cara com a fada, que tinha olhos cintilantes e empolgados e estava sentada toda empinada, de pernas cruzadas no canto da cama 
tamborilando os dedos no joelho. A menina assustou-se sinceramente. Resolveu coar os olhos, para conferir se aquele momento era mesmo real. E coou muito, muito 
mesmo, chegaram a ficar vermelhos. Quando viu que aquela pessoa na sua frente era de verdade, no teve outra alternativa a no ser:
     -        Sai daqui agora seno eu vou gritar.
     - Gritar no  conversar tranqilamente. Voc prometeu que a gente ia conversar tranqilamente, no acredito que mentiu pra mim!
     - Eu no sei o que  voc, como voc fez para entrar no meu sonho e para invadir a minha casa, mas eu vou gritar - avisou a adolescente.
     E gritou, e gritou, e gritou.
     E estranhou o maior silncio que j ouvira na vida assim que seu flego acabou.
     A fada no se abalou com os gritos e o nervosismo de Luna.
     -        Pode gritar mais, s no vai adiantar. Nem sua me, nem seu pai, nem ningum do prdio vai acordar. Passei o dia inteiro jogando neles um pozinho sensacional, 
o mundo pode acabar que ningum vai nem se mexer.
     - Por que  que est acontecendo isso na vspera da prova de Matemtica? Deve ser porque eu estudei muito e estou delirando. Tadinha de mim!, desesperou-se 
Luna, a essa altura andando pelo quarto em crculos.
     
                   
     - Como foi que voc entrou aqui? T tudo trancado, meu pai sempre checa as fechaduras antes de dormir.
     - J viu fada precisar bater em porta, guria?
     - Eu no acredito em fada! - exasperou-se Luna.
     - Ai, como vocs, humanos, so chatos com isso de no acreditar! Como  que no acredita em fada se est falando com uma?
     - Isso no pode ser verdade. Se voc fosse fada mesmo, estaria com roupa de fada, branca, esvoaante, linda, comprida... no com esse vestido amarelo-ovo rodado, 
de bolinhas pretas, essas luvinhas nada a ver, esse cabelinho armado e essa bolsa em forma de banana.
     - Que fada  essa que voc conhece que anda vestida desse jeito? S se for uma fada antiga! Nossa, como voc  desatualizada! Eu sou uma fada moderna, no est 
vendo?
     - Voc vai insistir nessa histria ridcula? Se voc  fada mesmo, cad as asas? Hein? Hein?
     - Que asas? Quem tem asa  anjo. E pombo. E eu no sou nada disso, eu sou uma fada. Fa-da!
     - A Sininho tem asa!
     A fada descontrolou-se seriamente:
     - A Sininho do Peter Pan?! Ah! Faa-me o favor, menina, a Sininho  uma personagem!  fico! ELA no existe. Eu no, eu existo, sou de verdade, t aqui bem 
na sua frente, !
     - Ento me prova que  fada! Faz alguma... alguma... alguma coisa de fada a!
     - Entrar no seu sonho, depois no seu quarto, te dizer a nota de amanh e fazer seus pais e todos os moradores dormirem profundamente  pouco para voc? Eu no 
estou autorizada a ficar gastando meus poderes com os escolhidos, no, t?
     Luna ouviu a enxurrada de palavras e ficou ainda mais confusa. Tatu tinha realmente feito aquilo tudo, o que devia bastar para que acreditasse nela. Mas era 
difcil demais para a menina acreditar na jovem serelepe de roupa esquisita que invadiu sua vida no meio da noite... Era tudo muito estranho, surreal, inacreditvel.
     - Eu no vejo voc, eu no escuto voc, voc  fruto da minha imaginao, do meu cansao, do meu estresse. Voc no existe.
     - , Luna, assim voc me magoa... - Fez beicinho a fada.
     - Eu estou dormindo. Tenho a falsa sensao de que acordei, mas estou dormindo profundamente, tenho certeza!
     Tatu levou as mos  cabea, dramtica, olhou na direo do cu e exclamou:
     - A, a, a, d-me pacincia, Fadona das Fadas!
     - Fadona das Fadas? V se eu vou acreditar num ser que se chama Fadona das Fadas! Alou! Voc  uma farsa! Ou ento... j sei! Foi a Bia Baggio que te mandou 
aqui para ver se eu ainda estava chateada com ela, n?
     - Imagina! Ela jamais faria isso! A Bia Baggio  fofa.
     - Ah, ento voc  amiga dela?
     - No, apenas conheo a Bia Baggio e todos que fazem parte do seu universo. As fadas do departamento de pesquisa capricharam, sei tudo sobre voc.
     - Arr, no vem com essa histornha de fada, no, por favor! Se voc no veio aqui a mando da Bia, voc  uma ladra muito da espertinha. Olha, no temos dinheiro 
nem jia em casa. O que posso fazer por voc  te dar alguns tquetes-refeio e vales-transporte do meu pai. E s.
     - Vale-transporte? Tquete-refeio? Caramba, eu ia estar ferrada se quisesse te roubar, hein?
     -        Se voc no  ladra, nem enviada da Bia Baggio, quem  voc?
     - Eu sou uma fada, garota! Fa-da! Alm de teimosa voc  surda?
     - Fadas no existem!
     - , coisa chata... O tempo passa, mas isso nunca muda.
     - Isso o qu?
     - Essa descrena insuportvel de vocs, humanos.
     - O que  que eu posso fazer se no acredito em fadas?
     - Ai, ai... quanto tempo voc acha que leva, mais ou menos, para acreditar em mim, hein? Preciso arrumar alguma coisa para fazer enquanto voc pensa, no quero 
ficar entediada.
     - Eu nunca vou acreditar em voc! Fada  uma entidade fantstica, que s existe nas histrias infantis, nos filmes e na imaginao.
     - Boa essa definio! S que eu no estou na sua imaginao. Eu estou no seu quarto. Quanto tempo voc vai demorar para acreditar nisso?
     - J disse, no vou acreditar nunca!
     - Xiiii... Vai ser demorado. Tem revista de fofoca? Adoro revista de fofoca! E preciso muuuito me atualizar. A Jovem Guarda ainda est na ativa?
     - Voc acha mesmo que eu conheo algum guarda? Nem jovem, nem velho, t nem a pra guardas! E no, aqui no tem revista de fofoca! Ns somos uma famlia culta! 
- exaltou-se Luna.
     - Ai, que lstima!
     - Escuta aqui, eu no vou me abalar com esse delrio, que  fruto do meu estresse diante da possibilidade de mais uma nota vermelha no boletim. Vou dormir e 
no me lembrarei de nada amanh.
     - No achei que voc fosse to turrona, Luna! , garota desconfiada! S espero que no acontea o que aconteceu com minha tia Efidlia. A coitada ficou sete 
meses sentada esperando a pessoa escolhida se convencer de que ela era fada de verdade. V se pode!
     - Eu vou me deitar, estou delirando, isso s pode ser preocupao com a prova - disse Luna, agora sentada na cama.
     - J no falei que voc vai tirar sete amanh? Pra que se preocupar? Falando em prova, eu, se fosse voc, nem pensaria em olhar para a da Clara, ela t bem 
pior do que voc na matria.
     Deitada, com a cabea no travesseiro, Luna disse:
     -        Eu no estou mais te escutando. Eu estou dormindo. Sua voz est ficando longe... longe... - sussurrou, antes de fechar os olhos.
     Silncio se fez. Luna achou que tudo no passava de um sonho maluco como tantos outros. Claro que era sonho!, pensou. E estresse, presso, preocupao com a 
prova, com sua relao com a me... Mas no era hora de pensar, era hora de dormir. Precisava acordar cedo amanh. Relaxando aos poucos e sentindo as batidas do 
corao acalmarem, ela estava, aos poucos, entrando novamente no mundo do sono quando...
     -        Buuu! - fez Tatu, baixinho, agora sentada no banquinho Lunamente pintado, cara a cara com a menina, que se levantou num salto dando um berro mais agudo 
que berro de montanha-russa.
     Ao levantar-se, Luna empurrou Tatu - que caiu de bunda no cho - e correu para a cozinha, apavorada, respirao ofegante, corao pulando, boca seca, estmago 
queimando. Chegando l, bateu a porta com fora e a trancou. Virou-se e deu de cara com um rosto familiar...
     -        Ainda bem que voc correu pra c! tima oportunidade para ver que eu sou fada mesmo e parar de desconfiana. Imagina se eu conseguiria estar aqui antes 
de voc se no fosse fada? Ainda mais depois de ser brutalmente jogada no cho! -disse Tatu, sentada em cima da pia, comendo uma ma. -Convenci agora?
     No, no tinha convencido. A menina ficou mais confusa. Quis voltar para o quarto, mas a porta da cozinha no abria de jeito nenhum. Nervosa, suando frio, mexendo 
repetida e forosamente na chave para sair dali, Luna conversava consigo mesma, bem baixinho:
     - No entra em pnico. No entra em pnico. Isso  uma alucinao.
     - Voc no vai conseguir sair, eu dei um sopro mgico para trancar a porta para a gente poder conversar direito e para voc no fugir de mim de novo. Senta!
     - Pra! Voc t me assustando! Manh! - gritou Luna, chorosa, socando repetidas vezes a porta da cozinha.
     - Ela est dormindo profundamente! Menina desmemoriada, eu no disse que joguei nos seus pais o maravilhoso "O, sonho bom!"? Esse pozinho  timo! Infalvel!
     ", sonho bom!" era o nome do pozinho. Pozinho de uma fada que se chamava Tatu. Era demais para a cabea de uma menina de 13-quase-14 anos.
     Luna caiu no berreiro.
     Chorou, chorou e chorou. Ficou  beira de um ataque nervoso. A fada, por sua vez, no moveu uma palha com a choradeira. Deu uma mordida na ma, duas, trs, 
quatro. E devorou a fruta, sua preferida.
     Sem alternativa, depois do choro calmante, a menina fez a pergunta que no queria calar, ainda soluando:
     - O que voc quer de mim?
     - Que voc fique amiga da Lara Amaral.
     - Como  que ?
                            
     - Voc precisa ficar amiga da Lara Amaral. Por isso eu estou aqui. Porque me designaram para essa misso: resolver o problema da Lara, que vai acontecer logo, 
logo. Voc precisa ajudar e, para isso, tem que ficar amiga dela. , resumindo  isso, eu acho.
     - Que man Lara? O que  que eu tenho a ver com o problema da Lara? T nem a para o problema da Lara! Como  que um problema da Lara  problema para deslocar 
uma fada de seus afazeres? Agora  que eu no acredito em voc mess-sssmo! - disse Luna, antes de virar-se para a porta da cozinha e girar sua maaneta. - Viu? Abri. 
No foi nada seu sopro mgico que trancou, a porta tinha s emperrado, t? Agora eu vou para o meu quarto, com licena!
     Tatu foi atrs dela.
     Qual no foi a surpresa da menina ao chegar  Casa da Luna. Ela estava arrumadssima, limpssma, nem um farelo no cho, nem um CD fora da caixa, nenhuma roupa 
fora do armrio. Um quarto como h muito tempo Luna no via.
     
    
     - Como  que... O que... Como... Estava tudo to... Como  que tudo agora est... No  poss...
     Luna ficou boquiaberta, esttica, parada na porta, sem conseguir sequer entrar. Aquilo tinha sido um senhor choque. Seu quarto estava arrumado como jamais estivera 
antes! Mais arrumado que quarto de hotel!
     Aos poucos foi caindo a ficha: aquela tagarela de roupa esquisita era mesmo uma fada. Caraca!
     - Viu? Posso at assustar, mas tambm fao umas coisinhas bem bacaninhas de vez em quando, n? - brincou Tatu, entrando no quarto e sentando na cama. Ao ver 
Luna ainda boquiaberta e paralisada, disse: - Vem logo, a gente precisa conversar sobre o problema da Lara.
     Vagarosamente, Luna entrou - ainda impressionada, olhos descrentes, boca escancarada. Sentou-se e no disse uma palavra, observando o quarto meio encantada, 
meio chocada.
     - Luna? Luna! Lunaaaa! Ai, ai, ai... a fase do choque. Da constatao de que eu sou uma fada. Voc acha que essa vai demorar muito? Porque, se for, voc precisa 
me arrumar um livro, uma revista...
     Silncio. Luna estava assustada, confusa, com a cabea embaralhada. Aquilo no podia estar acontecendo! No com ela! No na vspera da prova! E por que ela 
ajudaria a resolver um problema da Lara? Logo da Lara?
     Finalmente decidiu falar:
     - Achei que fadas tivessem mais o que fazer.
     - Olha a agressividade, olha a m-criao! Fadas tm muito o que fazer. Eu, por exemplo, resolvo problemas de adolescentes! E, pelo que me adiantaram, o problema 
da Lara vai ser um problemo.
     - A Lara  a mais popular da escola,  rica,  bonita, todo mundo queria ser igual a ela... Que problemo ela pode ter?
     - No sei, voc acha que as fadas-mestras me contam tudo? Sei que o problema  srio e que ela vai precisar de voc.
     - De mim? No sei pra qu... - desdenhou Luna, para logo perguntar, cabreira: - Ta, nunca achei que uma fada se preocuparia com uma adolescente...
     Tatu baixou a cabea, meio que com vergonha do que diria a seguir:
     - Eu no exatamente me preocupo com adolescentes. Acho a maioria chatinha, vazia, arrogante e ruim de papo, mas cuidar de adolescentes  a minha funo. Fazer 
o qu?
     - Funo?
     - E, eu sou uma fada jnior, designada para resolver problemas juniores, de gente nova.  a nica coisa que me deixam fazer. As fadas-mestras me acham muito 
desastrada e avoada para pegar uma misso importante, tipo ajudar nos Jogos Olmpicos, na Copa do Mundo, como tantas fadas por a...
     - Voc no  nada avoada, fez vrios truques timos aqui em casa!
     - Truque quem faz  mgico, Luna. Eu sou fada, fa-da! Fao magia, alguns feitios, umas poes... Mas eu realmente erro a mo de vez em quando, troco as palavras, 
os ingredientes... Tanto que minhas chefas j disseram na minha cara que eu sou a fada mais incompetente que j pisou no mundo das fadas.
     - Que grossas!
     - Isso porque voc no conhece as fadas-mestras, elas  que no so fceis! J me rebaixaram trs vezes a estagiria por causa de umas besteirinhas nas minhas 
ltimas misses por aqui.
     - Que besteirinhas?
     - A ltima vez que errei um feitio eu tentava fazer nascer cabelo num careca infeliz, pai de uma menina escolhida, assim, como voc. S que em vez de nascer 
cabelo na careca, nasceu na bun...
     - No!
     - Pois ... As duas bandas pareciam um urso, coitado dele. A minha fada-chefa precisou descer para consertar a minha burrada. Depois me deu a maior bronca e 
me deixou com cara de bunda na frente de todas as minhas colegas.
     - Imagino!
     - No, claro que no imagina! No estou falando no sentido figurado, a fada-chefa transformou cada bochecha minha em uma minibunda! Minibunda!!! E o queixo 
tambm! Fiquei com a maior cara de bunda que o mundo das fadas j viu por oito anos. Virei uma fada bizarra, todos debochavam de mim e faziam piadinhas. Foi horrvel.
     - Oito anos?! Caraca! , Tatu... estou ficando com peninha de voc...
     - Pode ficar. Eu tambm fico quando penso que uma fada jnior no tem as mordomias de uma fada supersnior.
     - Fada supersnior?
     - ! Tem as fadas seniores, que resolvem problemas de adultos, e as superseniores, designadas para ajudar muitos adultos de uma s vez ou adultos VIPs, tipo 
artistas, polticos, esportistas consagrados...
     - No  possvel! Voc s pode estar brincando!
     - Que nada! Tem fadas que ajudam nas guerras, na Cruz Vermelha, que trabalham na Casa Branca, no Projac, com as celebridades em Hollywood...
     - Pra! - pediu Luna, chocada.
     - Ih, menina, nem te conto! A amiga da prima da vizinha da minha manicure  ex-clu-si-va do Brad Pitt, olha que emprego! Tem fada pra tudo: pra tomar conta 
dos surfistas de ondas gigantes no Hava, pra auxiliar o pessoal que trabalha no turno da noite, pra ajudar bailarinas a superar seus limites... O sonho de muitas 
fadas, meu, inclusive,  virar uma fada supersnior.
     - Sei. E enquanto isso no acontece, voc vai ajudando a galera mais jovem.
     - Isso. Eu rodo o mundo para ajudar os adolescentes a resolver seus problemas. Mas voc j viu adolescente sem problema?
     - Difcil... - concordou a menina. - Ento voc  um tipo de anjo da guarda?
     - No delira! Anjos da guarda protegem! Eu s resolvo problemas!
     - Ah, t...
     - Pois , minha vida  muito sobrecarregada, eu s trabalho, trabalho e trabalho, nunca tenho um tempo para mim, para o meu lazer... H sculos no vou ao salo, 
no fao uma escova, uma limpeza de pele... Tudo bem, sei que posso fazer isso usando meus pozinhos sensacionais, mas salo  timo!
     Relaxa, a gente pe a conversa em dia, fala mal das outras fadas, dos adolescentes... Tem muito adolescente problemtico nesse mundo! Fico completamente sem
tempo pra cuidar de mim, para me dar alegria. Nem malhar mais eu consigo. Minha carteirinha da Fada Fitness deve estar toda empoeirada. A minha vida  muito cansativa,
Luna...
     -        Eu t boba...
     Completamente boba. Boba com a rapidez de Tatu com as palavras, boba com o fato de estar conversando com uma fada vaidosa, que fazia escova no cabelo e malhava
numa academia chamada Fada Fitness. Luna estava boba. E curiosa:
     - Me diz uma coisa, como  que vocs escolhem os problemas que vo ajudar a resolver? - rendeu-se  curiosidade.
     - Eu no escolho nada, as fadas-mestras que escolhem. Elas ficam bisbilhotando a vida dos humanos e quando vem uma coisa que vai ser bem complicada de resolver
enviam fadinhas fofas como eu para se intrometer e ajudar.
     - Que legal! Ento voc  uma espcie de fada madrinha?
     - Que  isso, falta muuuuito para eu chegar l! - ruborizou Tatu. - Se chegar! S vira fada madrinha quem pode, no  para qualquer uma, no. Precisa de um
currculo excelente, de anos e anos de provas dificlimas, indicaes de fadas superseniores... sem contar que fadas madrinhas precisam ser inteligentes, disciplinadas,
estudiosas e pacientes, o que eu no sou muito, sabe? Eu sou uma fada comum, podemos dizer que eu sou uma... fada-prima.
     - Fada-prima, fada jnior, fada-mestra, Fadona das Fadas... t amando isso tudo! - Riu Luna.
     - No  to bom, assim... Eu bem que queria fazer uma coisa mais adulta, trabalhar menos, ganhar mais e aproveitar mais a vida, sabe? Mas para isso eu preciso
resolver muitas questes juvenis antes.
     - Entendo. Mas um dia voc chega l, voc vai ver!
     - Eu sei, por isso eu estou aqui, por isso eu preciso da sua ajuda.
     - No estou entendendo, eu preciso te ajudar ou ajudar a Lara?
     - Ajudar a Lara vai me ajudar, porque assim eu sei que o problema dela vai ser resolvido.
     - Continuo sem entender.
     - Se voc no se aproximar da Lara, eu no vou conseguir resolver o problema dela, ou seja, no vou voltar para o mundo das fadas com minha misso cumprida.
A as fadas-mestras vo me botar de castigo de novo por no sei quantos anos e eu no vou ser promovida to cedo.
     - Anos? Isso  que  castigo!
     - E eu no sei? Eu no mereo ser castigada desse jeito! Quero flanar pelo mundo, ver gente, ajudar as pessoas, levar felicidade para as pessoas!
     A fadinha falava sem parar, era cativante, espevitada, agitada, animada, gesticulava muito. Era uma figura divertida. Luna pensou, pensou, pensou... E resolveu:
     - Eu vou te ajudar, Tatu! Fica tranqila. Se depender de mim, voc no vai ficar de castigo dessa vez!
     - Oba! Gostei de voc, Luna! Voc  uma brasa, mora?
     - Que brasa? Mora onde?
     - Uma brasa, mora! Isso  uma gria, u. No se usa mais? A ltima vez em que eu estive aqui "mora" era supimpa!
     - Supimpa? Quando foi que voc esteve aqui, hein? - quis saber Luna, achando graa daquela fada divertida, de voz fina e olhos acesos.
     - 1965.
     - 1965? Nossa, muita coisa mudou!
     - Imagino!
     - E o que voc fez desde 1965 que no veio pra c?
     - Eu dormi.
     - Dormiu?!
     - . Foi esse o meu ltimo castigo. Ai, nem sei se estava autorizada a falar sobre isso... Ah, agora j era!
     - No acredito que as fadas so carrascas assim! Te deixam com cara de bunda por oito anos e depois te fazem dormir por 42! Caraca!
     - Elas no so to carrascas, tm mesmo que nos castigar quando no fazemos a coisa certa! Imagina sua turma sem professor.
     - Ia ser uma eterna zona.
     - Pois ! As fadas-mestras so rigorosas, mas muitas vezes ficam com pena e do castigos brandos para a gente. Eu, por exemplo, estou ficando acostumada a dormir
anos a fio.  s cometer um errinho que, pimba!, l estou eu roncando.
     - Isso  um castigo brando? E eu reclamando do castigo da minha me... que absurdo!
     - O que voc ia preferir, passar 150 anos acordada rodando num labirinto sem sada ou dormir por 42?
     - Dormir por 42... eu acho... - respondeu Luna, chocada.
     - Claro! Foi o que escolhi!
     Caraca! Mil vezes caraca! Era muita informao! Era muita viagem!
     Tudo bem que Luna nunca fora muito ligada em fadas, era mais em bruxas, mas aquilo no se parecia com nada do que j tinha lido nas revistas, nos livros...
     Tatu era fada nova, jnior, como ela mesma explicou. No aparentava ter mais de 20 anos. Na sua idade, muitas fadas j ocupavam postos importantes, com funes
de relevncia mundial, inclusive. Ela, Novelita, Sofrosine e Lozil eram as nicas que ainda no tinham passado para a rea snior.
     A fadinha sempre esteve mais interessada em usar seus poderes para pregar pea nas amigas e xeretar conversas alheias. No era muito de estudar, no fazia as
lies de casa... Gostava mesmo de brincar, de se divertir, jogar bola e danar por qualquer pretexto.
     Cabelos castanhos na altura do ombro, impecavelmente arrumados e lisos, presos por uma faixa rosa, olhos maquiados com delineador  la "gatinha" e um sapato
alto verde-abacate que no combinava em nada com o vestido amarelo-ovo de bolinhas pretas, Tatu parecia ter sado da figurao de Grease -nos tempos da brilhantina.
     Aos poucos, mesmo que com milhes de pontos de interrogao na cabea, Luna se entregava  verdade que para ela seria a maior mentira do mundo duas horas antes: 
ela estava conversando com uma fada. E no era qualquer fada! Era uma que tinha passado 40 anos dormindo.
     -        Quarenta anos... Caraca!  muito tempo! - abismou-se a menina.
     -        No no mundo das fadas, tolinha... Mas  chaaaato... 
     Luna riu da espontaneidade da fadinha. E resolveu ser sincera com ela:
     - A Lara me odeia! Eu odeio a Lara!
     - Ah, tadinha! Por qu?
     - Porque ela contou para a Letcia, que contou para a Samanta, que contou para a Bia, que contou pra mim que nunca ia ser minha amiga. S porque ela acha que 
Luna & Lara parece nome de dupla sertaneja e, pra ela, dupla sertaneja  a coisa mais brega do mundo. Olha que ridcula! Nem me conhece, mas fala que eu no sirvo 
pra ser amiga dela! E por esse motivo bizarro! Alou!
     -        No fica assim, vai! Respira, conta at 20...
     -        Vou ter que contar at 20 mil para engolir aquela ali, viu? Ela se acha muito para o meu gosto. Toda metidinha, vive com o nariz em p. Os pas tambm 
so metidos, esnobes, o pai  um mdico conhecido, dizem que ele tem vrios quadros famosos em casa. Parece que tem mais quadro que parede na cobertura onde eles 
moram, em Ipanema.
     - Entendi. Tpica "famlia pum".
     - Como  que ?
     -        Famlia que se acha to acima de tudo e de todos que pensa que tem o pum cheiroso.
     A menina riu. E continuou enumerando os motivos pelos quais ela no ia com a cara de Lara Amaral.
     - Ela tem umas amigas inacreditveis, que me odeiam.
     - Por que elas te odeiam?
                            
     - Sei l! Nunca fiz nada pra elas. No entendo por que eu tenho que me meter nessa histria se ela tem vrias amigas, todas patricinhas que nem ela.
     - Patricinhas? O que  isso? Um grupo de ans chamadas Patrcia?
     - No! Patricinha  como a gente chama uma menina fresquinha, rosinha, ligada em grife, em jias, em futilidade, que faz escova progressiva...
                            
     - Faz o qu?
     - Uma parada a pra alisar o cabelo.
     - O que  parada?
     - Esquece.
     - 
     - No, fala mais das patricinhas! - pediu Tatu.
     - Ah... Elas compram feito doidas, andam com motorista, s pensam na aparncia, apesar de pirralhas andam maquiadsimas... essas coisas. E eu sou o oposto disso. 
Ando de saio, s vezes saio de tnis trocado, no penteio o cabelo, no uso nem rmel, nem blush, odeio gloss, acho que todo mundo fica com cara de boca babada, 
no uso salto alto porque gosto de ser baixinha, ando de busum...
     - Busum?
     - nibus.
     - Ah, t. E gloss?
     - Um tipo de batom.
     - Entendido.
     - Tambm t nem a para marca famosa, acho a Louis Vuitton brega, no ando vestida como todo mundo, no uso bon famosinho s porque  famosinho, pintei meu 
quarto do jeito que eu queria sem seguir moda nenhuma, gosto de preto mas tambm de rosa, verde, vermelho e amarelo... Eu sou eu! T nem a para a opinio das pessoas, 
t nem a se minha camiseta t furada, contanto que esteja confortvel!
     - Olha a! Bravo! - Aplaudiu Tatu. - Deve ter sido por isso que te escolheram. Gostaram do seu estilo, do seu quarto, do seu modo de ver a vida. Tenho certeza 
de que voc  a pessoa ideal para ajudar a Lara e para me ajudar.
     - Srio? No  possvel que as fadas-mestras tenham me escolhido s por isso!
     - Por isso e para eu te convencer a cortar um pouquinho esse cabelo, t muito comprido, ressecado, cheio de ponta dupla.
     Luna riu. E acabou dizendo  fada:
     -        T bom, pode contar comigo.
     - Que maravilha! Ento comea amanh cedo a se aproximar da Lara, hein? No temos muito tempo, o problema vai estourar j, j.
     - Beleza. Boa-noite.
     - Boa-noite.
     Depois de alguns segundos de reflexo, Luna pediu:
     - Tatu, ser que daria para voc dar uma pequena bagunada no quarto? Baguna pequenininha. Minha me ia desconfiar de alguma coisa se visse esse quarto to 
arrumado.
     - X comigo!
     - Brigada. Vem c, onde  que voc vai dormir?
     - Dormir? Voc acha mesmo que eu vou dormir? Eu dormi 40 anos, menina! O que eu menos quero fazer  dormir!
     - Ah, . Esqueci, desculpa. - Riu Luna, dando um bocejo gostoso.
     - No se preocupe comigo. Amanh de manh a gente se v.
     - T... - murmurou a menina, j quase entrando no mundo dos sonhos.
     Tatu no resistiu e, antes que a escolhida entrasse num sono profundo, quis saber:
     - Voc ainda est achando que isso  sonho?
     - No. E espero que no seja, porque agora estou achando TDB essa histria. Muito perfeita!
     - TDB?
     - Amanh te explico, Tatu. Boa-noite!
     Com a cabea no travesseiro, prestes a cair no sono, Luna pensou: No sei o que  isso, no que vai dar e por que est acontecendo comigo. Mas que vai ser divertido, 
ah, vai!
     
     
    
     
     
     No dia seguinte, Luna acordou com o despertador. Abriu os olhos e logo procurou a fada pelo quarto. Um escondido cantinho de sua mente acreditava que tudo no 
passara de um sonho, mas seus olhos logo viram o que procuravam: Tatu, que se olhava no espelho e penteava as madeixas lentamente.
     A menina deu um sorriso sincero quando viu que a fadinha continuava por perto.
     - Bom-dia, Tatu.
     - Bom-dia, Luna.
     - Que roupa  essa? Que cabelo  esse? - assustou-se a menina, ao ver a fada loura, em vez de morena como na noite anterior, com um coque bem armado e franjinha, 
e um macaco rosa-choque bem diferente do vestido da noite anterior.
     - Vim de Brigitte Bardot.
     - De quem?
     - De Brigitte, musa do cinema francs, a mulher mais linda do mundo!
     
    
    
     - Al-ou! Malu Mader, Gisele Bndchen, Ana Paula Arsio! Tem mil mulheres mais lindas do que essa a que eu nem conheo!
     - Pois nos anos 60, Brigitte era tudo o que toda menina queria ser. Sensual, perfeita, linda. Por isso vim vestida em homenagem a ela.
     - Como assim? E essa roupa? Surgiu de onde? E esse cabelo louro?
     -  s imaginar que roupa eu quero e, pimba!, estou vestida com ela. Quanto ao cabelo, quando quero um resultado mais sofisticado vou ao Fada's Coiffeur. L 
eles pintam nossas madeixas num estalar de dedos.
     - Que inveja!
     - , fadas so invejveis, mesmo. Ns somos um espetculo - gabou-se Tatu.
     - Voc no compra roupa, ento. Nunca.
     - No, eu copio mentalmente os modelos das vitrines, fao umas adaptaes e, pimba!, visto.
     - Uau! Isso  um tipo de magia?
     - .
     - Voc sabe fazer muitas magias?
     - Claro! Eu sou uma fada. Fa-da!
     - O que mais voc sabe fazer?
     - Uma p de coisas.
     - Uma p? De que ba empoeirado voc tira essas expresses, hein? Parece uma velha falando!
     - Uma p significa grande quantidade, quer dizer que sei fazer muitos feitios e poes. E velha  a sua av!
     - J vi que vou ter que te dar umas aulinhas de portugus, carioqus e grias do sculo XXI, porque as suas esto pssimas!
     A fada deu a lngua para a menina.
     - O que voc sabe fazer? - perguntou Luna.
     - Sei fazer coisas levitarem, desaparecerem... - enumerou Tatu, com narizinho de fada empinadssimo.
     - Mentira! Srio? Caraca! Ento voc pode fazer essa espinha desaparecer da minha testa?
     - No sei, nunca fiz uma espinha sumir.
     - Ah, tenta! Sempre tem uma primeira vez.
     - Hum... no sei... acho que no estou liberada para exercer esse tipo de poder com voc...
     - Por favor!
     - E se eu errar e fizer desaparecer suas sobrancelhas tambm?
     - Voc no vai fazer isso... eu confio em voc.
     - Confia? Mesmo? - disse Tatu, toda alegrinha.
     - Claro que confio! Agora vai, tira esse treco da minha cara. Hoje tem festa e eu no posso ir com esse chifre medonho no meio da fua! Por favor, fadinha, 
lindinha, amadinha, tira da minha cara essa espinha!
     - Fadinha? Voc me chamou de fadinha? E ainda rimou com espinha? Que lindooo! Aaaamo quando me chamam de fadinha! Adoro diminutivo! - A fada bateu palminhas 
enquanto dava pulinhos.
     - Ento faz uma magiazinha!
     - "Magiazinha" foi pssimo! Pssimo! Magiazinha quem faz  fada incompetentinha. Sei que as fadas-mestras me acham incompetentona, mas eu sou boa de magia. 
Quero dizer... quando acerto eu sou tima! - brincou a fada. - Voc quer que a espinha diminua ou desaparea?
     - Que ela desaparea e que minha pele fique macia como um pssego.
     - Quem faz milagre  santo, Luna. E eu sou fada. Fa-da!
     -        T bom, t bom. Faz o melhor que voc conseguir, ento. Tatu fechou os olhos, baixou a cabea, deu uma respirada
     profunda e comeou a mexer os braos como se quisesse danar uma msica rabe.
     -        Simsalamiiii! Pastramiiii, abacaxiiii, piu! Sopro mgico tira esse chifre da! - ela cantarolou, assoprando a testa de Luna. - Acho que voc vai 
gostar do resultado.
     A menina, mesmo cabreira com os versos amalucados entoados por Tatu, foi correndo para o banheiro checar se aquela fada era boa mesmo.
     E era!
     De frente para o espelho, ela deu um u-hu histrico e voltou correndo para o quarto, aos pulos, para dar em Tatu um abrao esmagadao.
     - Adoro voc, fadinha! Adoro! Muito obrigada - Luna disse, apertando e bitocando a bochecha da nova amiga.
     - De nada! Mas s fiz isso porque voc est me ajudando, hein? No acostuma, no.
     - Puxa, logo agora que eu ia perguntar o que mais voc poderia fazer por mim...
     - Muitas coisas. Poderia, por exemplo, jogar no seu computador o pozinho ", Internet rpida!" e melhorar essa sua conexo lentssima.
     - Jura? - chocou-se Luna, incrdula. - Que coisa moderna!
     - Ih, minha filha! Voc acha que fada  atrasada, ? Tolinha, est mais por fora que umbigo de vedete!
     - Qu?
     - T por fora, no sabe de nada!
     - Ah, t... - Luna riu.
     - Ns temos uma tecnologia super-hiper-megaavanada. Somos ultramodernas. O nosso portal, fff.fadas.fa.das,  super-lindo, supervisitado e com mil servios 
para os usurios.
     - T chocada...
     - Isso sem mencionar o ", iPod porreta!".
     - Que  que  isso?
     -  um pozinho para recarregamento instantneo de iPods, u. Uma maravilha.
     - Srio? Ah, ento acelera a minha conexo e joga esse pozinho no meu iPod a! Por favor!
     - No, no, por hoje chega. Fazer magia cansa a minha beleza... - Ela bancou a esnobe. - Agora vai tomar banho, quanto mais cedo voc chegar ao colgio, mais 
tempo vai ter para se aproximar da Lara.
     - T bom.
     Depois de um banho rpido, que teve direito a cantoria desafinada de Tatu do lado de fora (ela entoou sucessos da Jovem Guarda), Luna botou um tipo diferente 
de argola em cada orelha (sem querer, claro) e correu para a cozinha para pegar seu caf-da-manh: uma fruta-do-conde que levaria para comer no caminho. Os caroos 
seriam devidamente cuspidos num saquinho plstico que ela jamais esquecia. Achava um nojo gente que suja as ruas. Procurou a fada pela casa, mas no a achou.
     -        Tatu! Tatuuuu!
     E nada de Tatu. Luna resolveu ir para no se atrasar. Quando abriu a porta de casa, surpresa:
     - Tatu? O que voc est fazendo a?
     - Estou te esperando. Como voc demora para sair de casa!
     - , meu pai sempre reclama disso. Por que voc est parada na porta do elevador, posso saber?
     - Vou com voc para o colgio.
     - T maluca? No vo deixar voc entrar no colgio nunca, ainda mais com essa roupa que voc t usando.
     -        Luna, menina! Ningum vai ver essa roupa! Ningum, alm de voc, vai me ver ou me ouvir.
     A menina levou um susto:
     - Fala srio!
     - Estou falando, serissimo!
     - S eu vou te ver?
     - Isso mesmo.
     - S eu vou te ouvir?
     - Isso mesmo.
     - Que tudo! Parece filme!
     - Mas no ,  vida real. Por isso,  melhor no comentar sobre mim nem em casa, nem na escola, nem no futebol.
     - Como voc sabe que eu fao aula de futebol?
     - Eu sei muito mais sobre voc do que voc imagina, tolinha... - implicou Tatu. - Ento j sabe: bico fechado!
     - Claro que eu vou ficar de bico fechado. La todo mundo me achar doida se eu falasse qualquer coisa sobre voc!
     - Cuidado quando estivermos em lugares pblicos. Quando quiser falar comigo, s se for bem baixinho e disfaradamente. Ou ento no banheiro. As meninas ainda 
fofocam no banheiro, n?
     - Muito!
     - Sabia que isso no mudaria nem em 40, nem em 80 anos!
     - Tatu, voc bem que podia me ensinar a fazer poes mgicas, a aprender a tocar tamborim em um dia, a conquistar os gatinhos, a enrolar melhor os professores...
     - A  querer demais! J tirei aquela pipoca horrorosa da sua cara, t bom, n? Se a Fadona das Fadas descobre que usei meus poderes para isso, eu t frita! 
- disse Tatu, antes de entrar no elevador.
     E as duas deixaram o prdio de Luna s sete da matina, alegres, empolgadas, sorridentes e tagarelas, como velhas amigas.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
    
     No nibus, Luna murmurou para sua colega de poltrona:
     - Olha, essa histria de correr o risco de ser a culpada por mais 40 anos de sono ou outro castigo terrvel foi essencial para eu te ajudar, viu? Porque eu 
odeio a Lara! Odeio!
     - Odeia s por causa do Pedro Maia.
     - No, mesmo, eu odiava a Lara muito antes do Pedro Mai... Espera a! Como  que voc sabe do Pedro Maia?
     - Eu sei muitas coisas, muitas coisas sobre voc - disse, enigmtica.
     Luna olhou para Tatu desconfiada. E explicou:
     - Eu no odeio a Lara por causa do Pedro Maia. O Pedro Maia s aumentou o meu dio por ela. P, como assim ele ficou com ela? Que inveja!
     - No fique com inveja, voc deveria ficar com pena dela.
     - Pena? Ela ficou com o maior gato da escola!
     - Ele beija mal. Pavoroso o beijo do Pedro Maia, pronto, falei.
     - Qu?
     - Pelo menos foi o que ela contou para uma amiga do ingls.
     - Como  que voc sabe uma coisa dessas?
     - Eu sei tudo. Tudo, tudo, tudo - respondeu Tatu, com o nariz em p.
     Que surpresa! Pedro Maia, o gato dos gatos, o lindo dos lindos, o que tinha ficado com Lara Amaral, beijava mal. Muito mal.
     Que notcia boa!
     - O que mais voc sabe que pode me contar, hen? - perguntou Luna, louca para saber futrica.
     - No vou te contar mais nada, sua fofoqueira! Vamos parar de falar porque j tem umas pessoas olhando pra c e te achando maluca, e no  esse o objetivo da 
minha misso.
     
     Na frente da escola, enquanto Luna saltava do nibus, Lara descia de seu carro com motorista.
     - Que maravilha! Chegaram juntas! Vai l falar com ela!
     - J? - reclamou Luna.
     - Claro! Estamos correndo contra o tempo, o problema vai estourar a qualquer momento!
     - A qualquer momento quando? Daqui a dez minutos, dez horas? Eu tenho o direito de saber, j que vou ser obrigada a ajudar!
     - No sei! As fadas-mestras no so de dar detalhes! Elas gostam que as fadas juniores estejam sempre alertas, preparadas para tudo.
     - Chatas essas fadas - rosnou Luna. - Como  que eu fao para falar com essa garota?
     - Chega perto e puxa conversa, u. Vai, vai.
     A fada deu um empurrozinho leve em Luna, que andou emburrada na direo de Lara.
     -        Tira esse bico! Ningum vai querer ficar sua amiga com esse bico! Ai, ai, ai! - gritou a fada, de longe. No queria se aproximar, para no constranger 
mais ainda sua escolhida.
     Lara era uma menina bonita. Para muitos, a mais bonita do colgio. A mais popular (mas no s na escola. De vez em quando uma foto sua com os pais ou a irm 
estampava as colunas sociais), a mais olhada, a mais comentada, a mais imitada. Era s ela aparecer com um casaco ou uma mochila nova para ser copiada por nove entre 
dez meninas no dia seguinte.
     De famlia rica e moradora de uma megacobertura de frente para a praia de Ipanema, onde seus pas costumavam dar festas badaladas para convidados famosos, Lara 
seria bem mais bonita se sorrisse. Tinha um olhar de tdio nada atraente e parecia gostar apenas de si mesma. 0 que mais chamava a ateno era seu cabelo louro, 
longo, brilhante e sempre impecavelmente escovado. To bonito que gerara o boato de que ela tinha um cabeleireiro exclusivo, que ia a sua casa diariamente s seis 
da manh, s para deixar suas madeixas bem lisas para a escola.
     -        Oi. - Luna fez contato.
     Lara olhou para ela com desdm, deu um meio sorriso forado seguido de um desinteressado levantar de sobrancelhas e seguiu em frente, cara de desprezo total.
     Que raiva! Garota metida! Garota insuportvel, pensou Luna.
     -        Metida, mas voc no pode nem cogitar desistir! - disse a fada, aparecendo ao lado de uma Luna absolutamente boquiaberta. - Sim, eu leio pensamentos! 
Sim, voc ainda precisa ficar amiga dela. Puxa um assunto bacana. Elogia a mochila. Anda!
     Mesmo atnita com todas as informaes, Luna obedeceu  fada, apressou o passo e disse, meio sem pensar:
     -        Linda a sua mochila...
     Por dentro, mastigava, bem irritada, a idia de ter um ser fantstico invadindo seu pensamento. Fada mais enxerida!
     -        Linda? Eca! J no agento mais olhar para essa mochila, estou h mais de trs meses com ela. Minha irm vai voltar de viagem semana que vem com uma 
nova e muito mais bonita pra mim.
     Grossaaaaa! Vacaaaa!
     -        Pra de xingar e puxa mais assunto! Fala do tempo! Falar do tempo  timo!
     Mesmo muito, muito irritada com a nova intromisso de Tatu, Luna continuou:
     -        Parece que vai chover, n?
     -        O cu t azulzinho e sem nenhuma nuvem, Luna, como assim? O que  que est acontecendo, hein?
     -        Nada, u, fiquei a fim de falar com voc, s isso.
     -        Coisa estranha, voc nunca fala comigo! J sei, est se aproximando por causa do Pedro Maia! Acha que perto de mim pode acabar conquistando o meu lindo, 
n? Pois fique sabendo que eu e o Pedro Maia somos ficantes, perca as esperanas. Agora desgruda, vai! Desinfeta! - disse a riquinha, antes de deixar Luna no vcuo 
e seguir com o passo apressado rumo  sala de aula.
     "Tatu! Vamos para o banheiro! AGORA!", ordenou Luna mentalmente para a fada.
     Ao chegar l, checou se estava vazio antes de soltar o verbo:
     -        Eu odeio a Lara Amaral! Odeeeeeio! T fora dessa misso! Forsima!
     Oooops! Esse retrocesso no estava nos planos de Tatu. Ela fez sua melhor cara apavorada:
     -        No, voc no pode fazer isso comigo! Vo me dar um castigo mil vezes pior do que dormir por 40 anos!
     - T nem a! Nem te conheo direito! E no gostei nada dessa histria de voc ler meus pensamentos! Pensamento  muito particular! Quem  que deixou voc entrar 
no meu pensamento? Fada mais intrometida! - desabafou Luna, bem zangada.
     - Eu no vou entrar sempre no seu pensamento...
     - Eu gostaria que voc no entrasse nunca.  horrvel ter o pensamento vigiado.
     - Desculpe, prometo que s vou entrar na sua cabea quando o seu pensamento for relacionado a mim. Alis, enxerida  a vovozinha!
     - Que vovozinha? Ai, que fada antiga me mandaram! Tatu, mil desculpas, mas eu no estou pronta pra ter gente entrando na minha cabea e lendo meus pensamentos, 
no estou pronta pra virar amiga da ridcula da Lara Amaral, no estou pronta pra ser gente boa com a Lara Amaral, no estou pronta pra viver essa experincia.
     - Mas a Lara Amaral no  do mal... Ela  legal, uma menina que l jornal, que gosta de sal e de luau e que come bacalhau na noite de Natal!
     - Qu?! - perguntou Luna, irritada e sem entender nada.
     - Foi s pra rimar e ficar bonitinho. E pra voc rir e ficar menos brava.
     - Eu no estou brava. E no achei a menor graa na rima. Estou decidida, pode escolher outra menina pra te ajudar.
     O-ooou...
     - No posso, voc  a escolhida!
     - Era! Escolhe outra!
     - No posso!
     - Claro que pode!
     - No posso!  contra as regras, e elas so clarssimas.
     - Que regras?
     - Depois que o escolhido aceita ajudar no pode voltar atrs! Jamais!
     - ?
     - Xiii... te contei no, foi?
     - No!!!!!!!!!!!!!!!!!! - Luna aumentou o tom de voz, com mil exclamaes.
     - Mas  assim, menina!
     - No  possvel!
     -  sim! Est no artigo terceiro, pargrafo segundo do manual das fadas do meu departamento!
     - Voc no me falou nada disso! Aposto que inventou agora, no existe manual nenhum! Nem regra nenhuma!
     - , Luna! No foi por mal, eu esqueo as coisas! Eu sou muito esquecida... Vivo errando essa questo nas provas, j repeti o ano por causa dela! Eu NUNCA posso 
me esquecer de falar para os escolhidos as regras da misso. Nunca! - disse a fada, dando tapas seguidos na sua prpria testa.
     - Alm de antiga voc  repetente, Tatu?
     - E avoada, e distrada, e incompetente... - Entristeceu-se. - Se voc desistir de me ajudar, a misso no vai ter sido cumprida, vo me punir e eu ainda vou 
ficar mais um ano inteiro sem ir  Fadsney...
     - Fadisney?
     - A Disney das fadas.  to legal l... - disse ela, cabisbaixa, tristinha mesmo. - Queria ter ido quando fiz 600 anos, que  a idade com que a maioria das 
fadas costuma ir  Fadisney.
     - Voc j fez 600 anos?
     - Eu tenho 857 anos, sou uma fada superjovem, t?
     - E superconservada! - brincou Luna, descontraindo um pouco.
     -        Eu sei, eu estou tima. Por isso no quero mais ser castigada, quero aproveitar a vida, estou no auge dela. O meu prximo castigo vai ser bem pior 
do que dormir 40 anos, tenho certeza. As fadas-mestras sabem ser cruis com as reincidentes.
     Golpe baixo! Aqueles argumentos eram imbatveis!
     Luna bem que queria ajudar, mas que misso mais complicada essa fada fora lhe arranjar! Por que ela? Por qu? No podia ser apenas por causa de seu quarto maluco 
e de seu jeito descompromissado de encarar a vida.
     - Por que eu?
     - Por que no voc?
     - Porque mil pessoas nessa escola adorariam ajudar a Lara a superar um problema.
     - Mas  voc que vai fazer isso.
     - Por qu?
     - Porque sim!
     - 'Porque sim' no  resposta!
     - Que bobagem, 'porque sim'  uma excelente resposta!
     -  pssima!
     - , Luna, acredita em mim, voc no foi escolhida  toa. A Lara vai precisar ter voc por perto quando a bomba dela estourar. S quando isso acontecer  que 
voc vai entender por que foi a escolhida.
     - Voc disse bomba? Uma bomba  maior do que um problema! Bem maior! Voc sabe o que vai acontecer com a Lara e est escondendo o jogo!
     - Eu no tenho idia de qual  o problema da Lara, s sei que vai ter o efeito de uma bomba na vida dela. Mas se soubesse mais eu no poderia te dizer, realmente 
no estou autorizada a falar essas coisas para os escolhidos.
     - Olha, Tatu, quer saber? Essa histria de fada, de misso... tava legal at agora, mas de repente ficou muito chata, muito complicada. Voc  gente boa, fada 
legal, divertida, mas eu no vou conseguir te ajudar... E, principalmente, no vou conseguir ajudar a Lara...
     - S voc vai poder ajudar a Lara, Luna. S voc - disse Tatu, misteriosa. - Ela no  o monstro que voc pensa.
     - Ela  pior! E me irrita ter uma galerinha que puxa o saco dela s porque ela  rica, me irrita o ar superior que ela tem, me irrita ela tripudiar nos alunos 
nerds, me irrita ela usar maquiagem s sete horas da manh, tudo na Lara me irrita profundamente. Eu nunca vou conseguir ficar amiga dela! Ela me deu trs esnobadas 
em menos de dois minutos!
     - Voc que no soube puxar assunto direito. A gente devia ter ensaiado... Tenta de novo no recreio.
     - No quero.
     - Por favor! Por favorrrrr!
     A fada ps-se a chorar. Chorar lgrimas esquisitas, meio cintilantes. Luna ficou com pena.
     -        No chora! - pediu.
     E pensou, pensou, pensou. E arriscou:
     - T bom...
     - Obaaaaa!!!! Obrigadinha, Luninha!
     - Mas ser que eu no poderia tirar 8,5 em vez de sete na prova? S para a minha me me achar boa filha e boa aluna de novo?
     - J no falei que no fao milagre?
     - Por favor!
     - J tirei sua espinha! Voc est ficando muito folgada!
     - Por favor! Prometo que no peo mais nada. E vou te ajudar com muito mais gosto! - disse Luna, rindo.
     -        T bom, pensarei no seu caso. Agora vai, voc est atrasada!
     A fada, boazinha que s ela, pensou no caso com carinho e decidiu ajudar. No momento da correo das questes, ela jogou no professor o pozinho ", mestre bacana!", 
popularmente conhecido como "pozinho aumenta-nota". Na semana seguinte, Luna descobriria que tirara 8,5 na prova, a mais alta nota em Matemtica em toda a sua trajetria 
escolar.
     
     No recreio, Luna tentou se aproximar de Lara novamente, mas dessa vez teve de passar pelo interrogatrio de Nina Dantas.
     - Por que voc quer ir falar com a pequins subnutrida?
     - Hum... Sei l, acordei com vontade de puxar papo com ela.
     - Irc! cati! Blgou!
     - No faz assim, Nina! Alguma coisa me diz que ela no  o monstro que a gente pensa...
     Nina achou que a amiga apresentava srios sinais de insanidade, mas a fada ficou feliz  bea com a frase de sua escolhida. Agora, ela estava certa de que tudo 
voltaria a correr na mais santa paz, como deveria ser. Luna estava mais calma, mais ciente de sua misso, mais disposta a falar de novo com Lara, que lanchava tranqilamente 
com Gisele, Daniele e Juliane, suas amigas rosinhas, riquinhas e metidinhas.
     Luna se aproximou do quarteto antiptico.
     - Oi, Lara!
     - Voc de novo? Estou achando que voc est apaixonada por mim, no pelo Pedro Maia!
     Rosinhas riquinhas riram insuportavelmente alto. Riram muito. Rarrarr pra l, rarrarr pra c. Um rarrarr interminvel. Luna ficou bem, beeeem irritada.
     
           
     - O que voc quer agora, hein? - quis saber Lara.
     - Quero dizer que eu te desculpo.
     - Qu? - espantou-se Lara.
     - Qu?! - gritou a fada, mais espantada ainda, e um pouco brava tambm.
     - Pelos foras que voc me deu mais cedo, quando eu fui falar com voc, lembra?
     - Lunaaa! - gritou Tatu, chutando seu tornozelo.
     A menina engoliu a dor do chute, mas que aquela fada ia ouvir quando chegasse em casa... ah, ia!
     -        Eu no te dei nenhum fora! Apenas disse para voc desinfetar! Isso  fora?
     As amiguinhas rosinhas caram na gargalhada.
     - Eu s queria te conhecer melhor, perder a implicncia que eu tenho com voc. E te mostrar que para ser gente boa  s querer, que as pessoas so muito mais 
legais quando a gente sorri para elas, que falar 'bom-dia', 'por favor' e 'obrigada' no tira pedao, que ser vaca no  bom para a imagem de ningum...
     - Vaca? Foi isso mesmo? Ela me chamou de vaca, Gi?
     - Ela te chamou de vaca, La! - disse Gisele.
     - Vaca  voc! - rebateu Lara, partindo para cima de Luna.
     Em pouco tempo, as duas estavam engalfinhadas, puxando o cabelo uma da outra e xingando: "Vaca  voc! No! Voc que !"
     Foram parar na coordenao e, depois do sermo do coordenador, Luna teve de ouvir o sermo de Tatu em casa.
     -        Francamente, eu no esperava isso de voc! "Eu te desculpo"... Onde  que voc estava com a cabea? E aquela briga? Precisava daquilo?
     -        Desculpe, eu me alterei. Mas voc viu como ela foi grossa?
     - Voc chamou a garota de vaca!
     - Mas ela ! - justificou-se Luna.
     - Era para voc ficar AMIGA da Lara, no para espancar a Lara!
     - Eu no espanquei a Lara! - defendeu-se Luna. - Dei s uma pequena surra nela - completou, sapeca, risinho no canto da boca.
     - Isso, ri bastante. Aproveita e ri por antecedncia do cas-tigo que eu vou levar. Muito obrigada pela ajuda - irritou-se Tatu.
     - Desculpa, desculpa... Ainda tem a festa hoje, vou tentar me aproximar dela de novo. Juro que vou ser a pessoa mais fofa do mundo.
     - Mesmo com toda a sua fofura acho difcil ela querer papo com voc. Agora ficou tudo muito mais complicado, graas a voc e a sua liozinha de moral fora 
de hora.
     - Falando em lio de moral, vamos combinar que foi a primeira e ltima vez que voc chutou meu tornozelo, viu? Como eu queria ter te xingado naquela hora!
     - Ainda bem que no xingou, quem xinga fada tem 90 anos de azar.
     - Quem quebra espelho tem sete anos de azar! - corrigiu Luna.
     - Isso, isso! Sempre me confundo com esses ditados! O que  que acontece mesmo quando xingam fada?
     - Sei l! No sou fada! Eu sou humana. Hu-ma-na!
     - 
    
      noite, a me de Luna chegou em casa visivelmente exausta quando deu com a filha a lavar a loua do jantar. Ao v-la na cozinha, deixando a gua cair no prato, 
seus olhos cansados deram lugar a um sorriso, sorriso daqueles bem felizes de me. E disse logo em seguida:
     - Adorei acordar e ver seu quarto daquele jeito hoje de manh, viu? Quase no acreditei. S percebi que no estava sonhando quando vi seu casaco branco e um 
par de meias no cho. Mas dei um desconto e resolvi continuar orgulhosa por voc ter arrumado a Casa da Luna ontem  noite.
     A menina olhou para a me, olhou para o prato que lavava e, vendo a gua cair da torneira, deu um sorriso to, mas to escancarado, que mal cabia no seu rosto. 
Que afago materno gostoso! Sem contar aquele olhar orgulhoso que sua me trazia no rosto. Naquele momento, Luna percebeu que podia voltar a ocupar o posto de boa 
filha, que tanto prezava.
     - Como foi a prova?
     - Foi tima! Acho que me dei benzo!
     - Que bom, filha - disse ela, indo na direo de Luna para abra-la.
     Me e filha ficaram um tempo abraadas, a gua caindo, beijos pipocando entre as duas. Quando sua me virou-se para ir para o quarto, a menina no resistiu:
     -        Voc dormiu bem essa noite?
     -        Nossa, nunca tive sonhos to bons na minha vida! Se o mundo tivesse acabado ontem acho que eu no acordaria.
     Luna sorriu. Aquela fadinha era mesmo tudo de bom!
     -        Vou me arrumar para ir para a festa da Jordana, t, me? A Ednica vai passar aqui pra me dar carona. Volto com ela tambm, t?
     - Antes de meia-noite.
     - Uma.
     - Meia-noite.
     - Meia-noite e meia.
     - Meia-noite.
     - Meia-noite e quinze?
     -        Meia-noite em ponto, e no se fala mais nisso - decretou sua me, virando-se decidida para o quarto.
     E assim findou-se o lindo momento "carinho materno" que aquela cozinha acabara de presenciar.
     Luna foi para o quarto e Tatu estava l, parada em frente ao seu armrio aberto, dando uma olhada nas suas roupas.
     - Voc  muito enxerida, mesmo, hein? Quem foi que deixou voc abrir a porta do meu armrio?
     - Ih, eu j abri vrias vezes. Durante a noite, enquanto voc dormia, depois de dar umas voltas pela cidade, achei por bem retocar algumas roupas suas com o 
auxlio do superpozinho
     ", estilista magnfica!". Acho que voc vai gostar.
     -ou... Luna, filha nica que adorava ser filha nica, no gostava nadinha da idia de gente mexendo no seu guarda-roupa. Imagina uma fada metida a costureira? 
Pior, a estilista magnfica! Isso era muita ousadia!
     -        Como  que , Tatu?
     Fada mais abusada!, pensou Luna, irritada.
     - No me julga antes de ver, vai! Ah, eu fiquei entediada de madrugada e resolvi botar em prtica meus poderes de estilista. Eu sempre tive muito jeito para 
moda, viu?
     - Voc? Jeito para moda? Com essas roupas esquisitas que voc usa?
     - Esquisita  voc. Meu senso crtico para moda  apuradssimo. Sabe qual  o meu maior sonho de consumo? Uma varinha Prada, t, baby? Sou chique ou no sou? 
O problema  que custa os olhos da cara, mas isso prova como tenho bom gosto.
     - Prada? A marca Prada? A carsima e famossima Prada?
                            
     - No a Prada dos humanos, n? Estou falando da PraFada, a Prada das fadas! A gente  que abrevia o nome pra Prada.
     - As fadas tm uma Prada que faz varinha de condo? Quer dizer que fada usa varinha, ento?
     - Claro que no! A gente usa em formaturas, casamentos, festas black-tie...  chique chegar com uma varinha a tiracolo. Ainda mais da Prada.
     - Mas por que voc no faz uma magia e cria a sua prpria varinha da Prada?
     - T louca!? No  fcil imitar Prada, no! As fadas mais experientes reconhecem uma imitao de longe! S trs fadas no nosso mundo conseguem fazer varinhas 
Prada,  uma magia sofisticadssima, por isso so carssimas. E como no  todo mundo que pode comprar uma Prada, claro que algumas fadas compram as delas no camel.
     - Camel? Tem camel no mundo das fadas?
     - ... T assim de camel l! As fadas-camels tm a vida to dura, to difcil... Mas pelo menos elas se do bem no Carnaval, vendendo fantasias de Sininho, 
de Morgana...
     - 
     - Carnaval? Vocs tm carnaval? 
     - Animadssimo! Dura um ano.
     - Um ano?
                            
     - ! Um ano! , Luna, voc  surda ou lenta de raciocnio, hein?
     - Ah, claro,  supernormal conversar com uma fada,  supercotidiano ouvir de um ser fantstico que invadiu meu quarto durante a noite que existe uma loja Prada 
no mundo das fadas e que as fadas pulam carnaval. Voc no entende que  muita informao nova para a minha cabea? Alm disso, eu fico zonza com tanta energia!
     - Eu estou com muita, muita energia, mesmo, todas as fadas falaram isso. Tambm, depois de dormir 42 anos, era de se esperar que eu estivesse a toda, n? Pode 
vir quente que eu estou fervendo!
     - Olha, eu no quero nem ver os retoques que voc fez com tanta energia, no tenho tempo agora. Quando a gente chegar da festa, eu vejo as roupas em que voc 
mexeu, t? Mas se eu no gostar voc faz tudo voltar a ser como antes?
     - Claro!
     Tudo combinado, Luna abriu a gaveta das calcinhas para pegar uma para depois do banho. Qual no foi sua surpresa ao perceber que havia algo estranho no mundo 
das lingeries:
     - O que aconteceu com as minhas calcinhas, Tatu? - deu um grito enfezado.
     - Tchan! - fez a fada, sorrisao no rosto, empolgada e Parecendo bastante orgulhosa de seu... hum... trabalho.
     - Por que elas esto enormes desse jeito? - quis saber a menina.
     - De nada! Ficaram muito fofas, n? Tambm achei.
     - Elas ficaram o oposto de fofas! - reagiu Luna, indignada.
     - Voc no entende nada de calcinha, garota, calcinha boa  calcinha gigante. Calcinha enorme  muito melhor, mais confortvel. Sem contar que achei suas calcinhas 
pequenas demais, muito indecentes! Tambm tirei o bojo dos sutis com bojo. Achei muito sedutores para uma menininha como voc.
     - O qu? Eu quero AGORA minhas calcinhas e meus sutis com bojo de volta! Eu quero ir com peito maior na festa, sua fada intrometida! E quero ir com cala de 
cintura baixa. No d para usar calcinha gigante com jeans assim. Melhor pagar cofrinho que pagar calcinha.
     - Qu?
     Diante da expresso espantada da fada, Luna achou melhor no entrar num assunto to complexo quela hora.
     - Depois eu explico, mas agora eu quero tudo do jeito que estava!
     - Ih, t bem, t bem! Como  mal-agradecida... S queria te deixar mais bonita, mais confortvel, mais na moda...
     - Que moda? Isso  moda da dcada de 60! A gente est em 2007!
     - Voc tem razo, desculpe... eu s estava querendo ajudar... - disse a fada, cabisbaixa.
     - , Tatu... Ento, t. Quer arrumar coisa para fazer  noite? Ento ajeita esse vestido aqui, que est furado, arruma essa cala, que est larga na cintura, 
faz bainha nessa saia... -enumerou Luna, tirando as peas do armrio. - Agora vou tomar banho, daqui a pouco a Ednica t l embaixo.
     Com cala jeans baixinha, uma bata preta e o suti (com bojo recolocado) valorizando o decote discreto, Luna ficou linda. Perfumou-se e, por insistncia da 
fada, botou um batom clarinho, um rmel para valorizar os olhos e uma cor nas bochechas, providenciada no por um blush, mas pelo pozinho ", bronzeado espetacular!", 
de Tatu.
     -        Uau! T parecendo que fui  praia! Irado!
     -        Irado  enraivecido! Ah, no! Voc est com raiva de mim? Se voc no gostou da cor de sol, eu tiro, vem c...
     - No, Tatu! Irado  uma coisa muito boa, muito maneira.
     - Maneiro  bom, n?
     - Muito bom.
     - Ento t - disse a fada, dando uma piscadela.
     Nove e meia em ponto, Ednica e sua me estavam na portaria para busc-la. Luna pegou o elevador com Tatu em silncio. Ela sabia que no seria uma festa qualquer. 
Seria a festa em que tentaria mais uma vez se aproximar daquela... daquelazinha... Lara Amaral. Argh, pensou.
     -        Olha a m vontade com a garota!
     -        Olha voc entrando no meu pensamento de novo! No tem vergonha, no, ? Pra com isso, Tatu! No gosto!
     - T, t. Encontro voc na festa.
     - Voc sabe onde ?
     -        Claro que sei, tolinha - disse Tatu, desaparecendo num piscar de olhos, deixando no ar um pozinho brilhante, que lembrava purpurina.
     Luna levou um susto. Era a primeira vez que algum desaparecia na sua frente. Ficou chocada e embevecida ao mesmo tempo. E saiu do elevador com um sorriso encantado 
no rosto.
     
     No play de Jordana, o DJ tocava hip-hops conhecidos da galera e uma fumaa esquisita deixava o ambiente com cara de incndio. Mas era s gelo seco. Para o salo 
de festas ficar com cara de festa.
     Meninos de um lado, meninas de outro. Meninas danando e incorporando as letras das msicas, meninos rindo, se socando e falando sobre esporte; meninas com 
olhos atentos, meninos nem a para elas.
     
     Luna chegou e no avistou Tatu. Poucos minutos depois chegou Lara Amaral que, para sua surpresa, estava sem Pedro Maia. E sem aquelas amigas insuportveis. 
tima chance para se aproximar. Respirou fundo e foi at ela:
     - Mil desculpas por hoje.
     - Voc de novo? No acredito! - rugiu. - E no desculpo!
     - Eu s queria te conhecer melhor.
     - Claro, arrancar os cabelos de uma pessoa  uma tima ttica para se aproximar dela - debochou Lara.
     - Desculpa a, vai! Eu sou da paz, sou do bem... acho briga uma coisa to horrorosa, to nada a ver comigo... t com vergonha do que fiz mais cedo.
     Silncio. Lara agora ouvia atentamente Luna.
     -        C t na TPM? - perguntou Lara.
     Luna no estava, mas achou tima essa desculpa. - T.
     - Mentira, queria se aproximar de mim para ficar perto do maravilhoso Pedro Maia.
     - Eu no t a fim dele, Lara.
     - T bom.
     - Srio, ele no  meu tipo - disse uma mentirinhazinha.
     - Seu tipo? Um garoto lindo, maravilhoso, sensacional e dono de um beijo espetacular no  seu tipo? Conta outra!
     - Ele no  maravilhoso, vai.
     - No, ele  supermaravilhoso.
     - Por que ele no est aqui com voc?
     - Porque... porque... porque eu no quis vir junto, no gosto de namoro-grude - gaguejou Lara.
     - Sei. E, vem c... o beijo dele  isso tudo, mesmo? - perguntou Luna, bancando a curiosa.
     - Nossa!  o melhor beijo que eu j dei na vida!
     Luna quase contou a ela que sabia que de bom o beijo de Pedro Maia no tinha nada. Em vez disso, pela primeira vez na vida, sentiu pena de Lara Amaral. A menina 
mais metida do colgio estava mentindo para ela mesma.
     Lara estava sem graa, visivelmente constrangida. Luna quebrou o gelo.
     - Posso te servir um refrigerante?
     - Claro que no. Minhas melhores amigas vo chegar j, j, elas fazem isso pra mim.
     Mais uma vez, a alfinetada de Lara tinha sido nela prpria. Era difcil admitir que ela, a mais popular, a mais linda, a mais rica, estava completamente sozinha 
na festa mais esperada do ms. Da as respostas grosseiras. Luna foi compreensiva:
     - P, Lara, me d uma trgua, vai! Eu t em misso de paz!
     - O que  que est acontecendo, Luna? - quis saber Lara, desconfiada.
     Luna pensou, pensou, e saiu-se com essa:
     - Eu sonhei com voc uns dias atrs, um sonho em que um anjo me dizia que eu tinha que ficar sua amiga. Como sou meio esotrica, achei que no custava nada 
fazer o que o anjo mandou. Vai que a gente se d bem?
     - Sonho? - indagou Lara, com um sorriso tmido, porm sincero.
     - , sonho!
     - Eu gosto dessas coisas de sonho... E de anjo. Adoro anjo!
     -        Eu tambm! Olha a, j temos uma coisa em comum! Lara olhou no preto do olho de Luna como jamais olhara antes.
     -        E ento? Ser que no d para voc me dar uma chance? - indagou a escolhida de Tatu.
     Diante do sorriso agora aberto de Lara, Luna virou-se para pegar os refrigerantes. Enquanto enchia os copos...
     
     - Adorei essa histria de sonho, muito bem, Luna, bela sada! Sonho  sempre enigmtico, misterioso, impressiona. E aproxima as pessoas. Sonho e anjo, ento... 
tima combinao! Meus parabns, escolhida!
     - Onde  que voc estava?
     - Passeando por a. Como as coisas esto mudadas! Os carros esto muito mais rpidos e bonitos, tem muito mais prdio na rua, mas achei que as pessoas parecem 
muito mais estressadas.
     - Voc passeou como?
     - Flutuando. Vim flutuando de Copacabana at aqui.
     - Voc flutua?
     - Claro que flutuo, Luna! Eu sou uma fada, fa-da!
     - Pra!  o maior sonho da minha vida flutuar! Sempre sonho que estou flutuando!  legal?  em cmera lenta ou  rapido? Voc flutua alto ou baixo?
     - Depois te conto, agora pra de conversar comigo, voc tem que conversar com a Lara - ordenou Tatu.
     Luna estava virando-se para obedecer a sua fada-prima quando avistou um obstculo para o cumprimento de sua misso.
     - Droga!
     - O que foi?
     Pedro Maia tinha acabado de chegar e estava falando com Lara.
     - No vou mais l, n?
     - Claro que vai, leva esses refrigerantes.
     - No! Eles vo se beijar j, j! Eu no vou para l para empatar os dois.
     - Olha l, olha l, o Pedro Maia trouxe um amigo. O casal no est sozinho, vai l, leva os refrigerantes, fica amiga dela, anda!
     Tatu disse isso e empurrou Luna. - T aqui o seu refri, Lara. Oi, Pedro.
     - Oi, Luna. Esse aqui  o Lo, amigo meu l do prdio.
     - Oi, Lo, tudo bem?
     -        Hum... t timo, Luna, mas t precisando de mais um pouquinho de gelo. Voc bota pra mim?
     - Voc t brincando, n, Lara? Tem trs pedras de gelo!
     - Mas eu quero mais uma. Eu gosto de nmero par.
     -        , Lara, eu no sou uma daquelas meninas que puxam seu saco, no. Eu quero ser sua amiga, no sua empregada.
     Lara pareceu armar-se para um bate-boca com Luna quando a fada se intrometeu na conversa:
     -        Pra com isso, menina! Vai e no discute! Deixa de ser cricri! - branqueou com sua escolhida.
     Luna engoliu a raiva e o orgulho, lembrou-se da misso esquisitssima em que se metera e resolveu agir como uma menina madura.
     - Mas como voc pediu com jeitinho e muuuuito fofamente, eu vou pegar mais gelo para voc, Lara.
     - Uma pedra, t? E no muito grande - especificou Lara, agora sorrindo.
     - T - disse Luna, tentando disfarar a imensa irritao com sua futura amiga. - Me d seu copo - pediu, antes de virar-se rumo ao isopor com bebidas.
     -        Eu vou com voc, estou com sede - disse Lo.
     A vontade foi espirrar em cima do gelo antes de bot-lo no copo, mas no se faz isso com uma quase-amiga, Luna sabia. Enquanto Lo se servia, Luna o observou 
calmamente. E percebeu que um Lo valia por sete Pedras Maias. Lindo, cabelinho bonitinho, fortinho, olhos espremidinhos, o garoto era um gati-nhoinhoinho.
     Justamente quando Luna fazia essa constatao, Lo deu para ela um sorriso de abalar qualquer corao carente. Ela, claro, sorriu de volta. E os dois ficaram 
se encarando por um tempo. A fada logo se meteu:
     -        Nem pensar, Luna. O momento no  para conquista! Muito menos para paixo. Sai daqui enquanto  tempo!
     Sem tirar os olhos de Lo, Luna quis saber:
     - Onde  que voc estuda? - perguntou, melosa, ignorando totalmente a fada.
     - No! Isso vai atrasar tudo! Oh, no! A outra est l aos beijos com o Pedro Maia! Isso no vai dar certo, no vai dar certo. Vamos ao banheiro, Luna. Agora!
     - Eu vou dar um pulo no banheiro e j volto, t? Fica aqui me esperando?
     - Claro que fico, Lu.
     Lu? Que fofo!, Luna, ou melhor, Lu comemorou por dentro.
     - Olha a salincia, menina! No seja fcil, assim! Cad o jogo duro? - berrou Tatu no ouvido de Luna assim que chegaram ao toalete.
     - Que foi? A Lara e o Pedro esto se beijando, no vou ser a chata que vai atrapalhar. Se eu fizer isso, ela vai me achar superinconveniente e a  que no 
vai querer ficar minha amiga!
     Com a mo no queixo e pinta de pensativa, a fada chegou  concluso de que Luna estava certa.
     - T bem, t bem. Pode ir l ficar de prosa com o Lo.
     - Ficar de qu?
     - De papo.
     - Ah, t. Mas  que... eu acho que eu no quero s ficar de prosa com ele...
     - Est bem, pode danar com ele tambm...
     - Eu quero ficar com o Lo.
     - 
     - Ficar danando com ele, foi isso que eu disse.
     - D! Ficar no  danar, Tatu! Hello-ou! Ficar quer dizer beijar, juntar boca com boca e mandar ver!
     - C-c-como  que ?! - fez a fada, absolutamente chokita.
     - Ficar quer dizer passar um tempo beijando um menino. Pode ser numa festa, num show, numa matin, no cinema. E esse beijo pode durar a noite toda ou apenas 
alguns segundos.
     - Voc est falando de beijo na boca?  isso mesmo que eu estou ouvindo?
     - Claro que  beijo na boca! - Riu Luna. - No rosto eu beijo a minha me, o meu pai... - explicou, com naturalidade.
     A fada estava plida. Parecia escandalizada. Boquiaberta, olhou para o cu, botou as mos na cintura e desabafou:
     - Meu Fadim Fadi Ccero, que sem-vergonhice  essa?! Onde  que esse mundo vai parar?
     - Fadim Fadi Ccero? Ah, pra! - gargalhou Luna.
     - Olha o respeito! Fadim Fadi Ccero  o protetor das fadas - brigou Tatu. - Mas no pense que vai fugir do assunto, espertinha! Isso que voc est me contando 
 um absurdo, uma falta de vergonha!
     - Ai, cara, que fada mais sem noo! Ficar no tem nada demais! O que  que tem eu querer beijar o garoto?
     - Voc no pode beijar esse menino, voc nem o conhece, Luna!
     - Eu superconheo o Lo. Conversei muuuuito com ele!
     - Trs minutos  muito desde quando? Ningum conversa muuuuito em trs minutos!
     - Trs minutos  uma eternidade! Tem gente que nem conversa, beija antes mesmo de saber o nome.
     - Fadas me mordam! Que absurdo! Como  que em 42 anos o romantismo acabou? Que tragdia!
     -        Ah, Tatu! Pra de ataque e me ajuda a conquistar o Lo, vai! Ele me d um frio na barriga...
     Tatu ficou indignada com o pedido.
     - V se uma fada sria como eu vai ajudar uma criana como voc a entrar nessa indecncia! Cad o romance, a mo na mo, a conquista, as flores?
     - Que flores? Nossa, Tatu, como voc  careta!
     - Careta?
     - ! Ai, como  que eu vou explicar isso? Uma pessoa careta  uma pessoa certinha, conservadora, presa aos padres tradicionais, sabe?
     - Ah, t. Voc me acha quadrada, entendi...
     - Quadrada? Eu te acho meio redondinha, quadrada no...
     - Redondinha? Voc t me chamando de gorda, Luna?
     - Ah, Tatu, voc est meio acima do peso, n?
     - Ah, ? Ah, ? Pois fique sabendo que no tempo em que eu estive por aqui eu era uma fada linda, maravilhosa, corpo de misse de parar o trnsito! E no era 
nada quadrada, quer dizer, careta! Sempre fui moderna, pra frente! Pra frentex.
     - Pra frentex? Corpo de misse? Cara, so muito hilrias as coisas que voc fala!
     - Olhe o deboche, eu sou uma fada! Fa-da! E s sou conservadora no que diz respeito  sem-vergonhice. No tempo em que vim aqui os rapazes flertavam com as meninas 
antes de namorar.
     -?
     - Flertavam, olhavam, paqueravam...
     - Ah, t.
     - A, se as meninas retribussem o flerte, os caras se aproximavam, pediam o telefone... e conversavam s pampas antes de ir  casa delas para conhecer a famlia, 
pedir em namoro...
     - 
     - Nossa, que coisa mais demorada!
     - Os casais namoravam um tempo com os pais da menina por perto, s depois de uns meses  que eles comeavam a sair, se os pais permitissem. Mas nada de beijo!
     - Sem beijo? Eles faziam o qu, ento?
     - Conversavam, iam ao cinema,  lanchonete, se conheciam, viam se suas personalidades combinavam, se era bom estar perto um do outro... S depois de um tempo 
os casais se beijavam. V se assim no  muito mais romntico? Muito mais bacana que conhecer e sair beijando. Que salincia  essa? Voc  moa de famlia!
     Luna riu.
     - No estou entendendo... Voc no deu nenhum ataque quando viu a Lara e o Pedro se beijando. Por que eu tenho que ouvir esse sermo todo?
     - Porque s voc me ouve. Se todos aqui pudessem me ouvir, eu ia passar um pito em todo mundo. Ah, se ia! Romantismo  lindo! Cad o romantismo, minha gente?
     - Romantismo  legal, Tatu, eu sei. Mas hoje tambm  bom, acho que  menos complicado. A gente fica. Simplesmente fica. Se o ficante vai virar namorado, a 
s Deus sabe. Se ele beijar mal,  s partir para outro. Ficar  supercomum, todo mundo fica. Em festa, em show, no carnaval. Com um, com vrios.
     - Como "vrios"? Vrios no mesmo ano?
     - Claro que no! Na mesma noite!
     - No  possvel! Que assanhamento! Onde  que esses jovens vo parar? Ningum mais tem medo de pegar sapinho?
     Luna achou graa da preocupao de Tatu. Ela tinha corpo de jovem, cara de jovem, mas no fundo pensava, agia e falava como sua av.
     - No  assanhamento! Todo mundo pega todo mundo, os tempos mudaram.
     - Estou passada. Me diz uma coisa, as meninas que 'pegam' vrios numa noite no ficam faladas?
     - Ficam. Isso no deve ter mudado muito desde a ltima vez que voc veio aqui. Mas no acho justo as meninas ficarem faladas e os garotos ficarem metidos porque 
pegam todo mundo.
     -        ... Pelo visto, pouca coisa mudou desde 1965.
     -        Ento t, fadinha queridinha, o papo est timo mas agora vou l ver meu gatinho, t?
     -        Eu vou com voc.
     - No, mesmo!
     - Vou!
     - No vai! Vai dar uma volta! Vai flutuar por a!
     -        De jeito nenhum, vou ficar do seu lado! No vou permitir essa pouca-vergonha! O menino tem pinta de safadinho.
     -        De fofinho, voc quis dizer. Agora vaza, deixa de ser grudenta!
     - Vaza?
     - Some, evapora! Voc sabe fazer isso como ningum.
     -        Olha o deboche, Luna! Luna, no me ignore, Luna. Lunaaaa!
     A menina virou-se, deixou Tatu falando sozinha e foi ao encontro de Lo. A fada, claro, foi flutuando atrs. Assim que Luna se aproximou do garoto, ele a pegou 
pela cintura.
     - Voc  linda, sabia?
     - R... rerr... - Riu, suuuper sem graa.
     "Que riso bobo  esse? Que cara de vira-lata empolgado  essa? No vai beijar esse garoto! No  hora de se apaixonar!"
     "Quem falou em se apaixonar, sua fada doida?", rebateu Luna, em pensamento, claro, sem tirar o sorriso dos lbios e os olhos dos olhos de Lo.
     -        Voc  a namorada que minha me pediu a Deus. 
     , que lindo!, comemorou Luna mentalmente.
     - Lindo? Ele acha que a ME dele ia gostar de voc. Isso  lindo onde?
     - Vamos danar?
     - Claro.
     "Agora, sim! Danar no  ficar, no  sem-vergonhice. Estou comeando a achar que ele no quer s tirar uma casquinha de voc, Luna."
     "Voc ainda t falando? Caramba, como voc fala, Tatu!"
     E eles danaram. E comeram salgadinhos e beberam refrigerante e se olharam, e conversaram, e riram. At a fada, que agora observava tudo de longe, comeava 
a achar o casal bonitinho.
     Depois os dois foram para a parte de fora do salo de festas, onde a luz era quase nula e um murinho providencial escorava alguns casais que tinham se formado 
na festa. L, encostados lado a lado, conversaram mais um pouco.
     Ele no esperou muito para abraar Luna, que tentou disfarar a ansiedade pelo primeiro beijo.
     - Tenho que ir ao banheiro.
     - De novo? - assustou-se Lo. - Voc t passando bem?
                            
     - Arr, t tima, espera aqui, j volto. Luna estava desesperada.
     - Tatu, voc t a?
     - Sim! - A fada materializou-se na sua frente. 
     - - Eu t em pnico! Pnico grave!
     - Por qu, menina?
     - Porque eu sou BVL! BVLsima! E ningum sabe disso, s a Bia Baggio, a Nina Dantas, a Clara Damasceno, a Julia Baltazar, a Maria Luza Soares, a Nanda Monteiro 
e a Letcia Simonetti - enumerou Luna, falando mais rpido que locutor de corrida de cavalos. - Voc acha que eu conto para o Lo que sou BVL?
     - Eu sei l o que  BVL!
     - Boca Virgem de Lngua! Selinho eu j dei, mas lngua... s conheo a minha!
     - Do jeito que voc me deu aulas sobre ficar e pegar, achei que voc era superacostumada a beijar. Uma mestra no assunto.
     - Que nada! Nunca beijei, no sei como  e nunca aprendi, por mais que eu quase entre na televiso quando tem beijo nas novelas.
     - Mas voc nunca treinou?
     - Treino direeeto! No espelho, na mo...
     - Treina na ma, boba.  melhor. Pelo menos voc baba, baba, mas come depois, e ma  uma fruta muito gostosa. Mesmo babada.
     - cati! Que nojo! - estrilou Luna. - Anda, me diz o que voc acha, falo ou no falo?
     - Acho que voc no beija. Est claro que voc no est preparada. Voc  muito criana pra beijar!
     - No vou nem comentar essa frase. Sabe o que ? Eu tenho medo de errar o beijo.
     - No tem erro nessas horas! - irritou-se a fada.
     - E se minha lngua sufocar o garoto, entrar na garganta dele e no sair? Eu posso matar o menino, coitado! Eu tenho a lngua enorme, ! - disse Luna, tocando 
a ponta do nariz com a lngua, para mostrar para a fada que falava srio.
     Tatu riu. E se rendeu  modernidade. Afinal, vrias meninas na festa estavam ficando e ela no podia atrapalhar Luna nessa hora.
     -        Que bobagem! Claro que voc no vai matar o Lo, que idia! Rapidinho voc pega o jeito e vai beijar que  uma beleza!
     -        E se ele perceber que eu sou BVL?
     - Ele no vai perceber! No acredito que vou dar esse conselho, mas, pelo que parece, os tempos so outros, mesmo.
     - Fala logo! No quero que ele pense que eu estou com diarria,  muito anti-romntico!
     - Luna, caso o Lo perceba a sua BVLice, voc admite que est iniciando no negcio e pergunta se ele se importa de te dar umas aulas de beijo. Aposto que ele 
vai amar ser seu professor.
     - T louca? Nunca vou conseguir dizer isso! No tem como voc jogar um pozinho na minha boca para eu ficar com o melhor beijo do mundo?
     -        No!
     - Que fadas insensveis e injustas! Existe um pozinho ", sonho bom!", outro chamado ", iPod porreta!" e no existe um "O, beijo gostoso!"?
     - Claro que existe, s no est aqui comigo. No achei que precisaria dele, nunca passou pela minha cabea que uma pirralha como voc j pensava em beijo.
     Irritadssima com o "pirralha" e com a falta de um pozinho que lhe desse confiana lingual, Luna virou as costas e foi marchando para perto de Lo, que parecia 
ainda mais bonito.
     Abraou-o lentamente, ele mexeu no seu cabelo, ela sorriu, eles se aproximaram mais, o ar faltou, a temperatura esquentou, o corao acelerou, suas bocas ficaram 
a menos de um centmetro uma da outra at que a boca de Lo encostou suavemente na de Luna.
     Ui, que frio na barriga eia sentiu!
     Beijaram muito. E foi booom!
     E Luna no falou nadinha sobre sua BVLice para Lo.
     No foi naquela noite que a menina conseguiu ficar amiga de Lara, embora uma grande porta tenha sido aberta. Agora ela sabia que tinha amansado a fera, tudo 
seria mais fcil. Quando o problema acontecesse, ela certamente j estaria mais prxima de Lara.
     Pensou nisso e foi para casa feliz, sonhando acordada com os abraos de Lo e com a misso que ela finalmente comeava a cumprir. Embora no fosse fada, foi 
para casa flutuando. Flutuando nas ondas de calor e arrepio que seu corpo sentiu no trajeto at seu edifcio toda vez que se lembrava de seu primeiro beijo.
     Morta de cansao, assim que entrou no quarto se jogou na cama. E s no desabou de sono porque, como tpica mulherzinha, quis perguntar a si mesma: "Ser que 
ele vai ligar amanh?"
     - Ai, ai, ai... Vocs no aprendem! Isso no muda! O Lo  um garoto, Luna, e, como todo garoto, ele pediu o telefone para no ligar no dia seguinte. Acorda, 
Luna!
     - Fada enxerida! Entrou no meu pensamento de novo! -branqueou. - E quem disse que ele no vai ligar? Ele pode ser romntico! Pode ser fofo, pode estar pensando 
em mim... Pode me mandar flores, pode me pedir em namoro...
     - Namoro? Achei que vocs tinham s... "ficado".
     - ... voc t certa... A gente s ficou. Pensando bem... no sei mesmo se eu quero namorar. Agora que perdi meu BVL  melhor dar uma conferida nos beijos de 
outros meninos, n? Ver qual combina melhor comigo...
     - 
     - Fcil! Vai virar uma menina fcil, uma menina falada, uma Maria Maaneta, todo mundo vai passar a mo! Que desgosto! - fez drama a fada, arrancando uma gargalhada 
da menina.
     -        Maria Maaneta? Que coisa engraada! Tatu, eu no vou sair pegando geral, vou saber selecionar os caras, pode deixar. Eu sou muito exigente, no vou 
ficar com qualquer um s por ficar.
     -        Ah, bem. Ento, nada de namoro?
     - Nada de namoro, t decidido! Quero praticar, ficar, deixar meu beijo um espetculo!
     - Fico aliviada, acho bom mesmo voc no pensar em namoro agora, no vai sobrar muito tempo para namorar quando acontecer o problema da Lara.
     - Chato  que eu no consigo parar de pensar nele... Ser que estou apaixonada pelo Lo?
     - Claro que no! Voc est com pensamento fixo no cara s porque ele te deu seu primeiro beijo! Supernormal!
     - ... - suspirou Luna, sorriso pateta nos lbios, olhos perdidos no nada.
     - Ah, no! No agento paixonite de adolescente,  demais para a minha cabea, menorrrr pacincia. Tchau! - disse a fada, um tanto irritada, antes de evaporar 
no quarto e deixar Luna com olhar de pamonha olhando para os desenhos coloridos no teto.
     As sete da manh, a menina ouviu a voz que j lhe era familiar:
     - Bom-dia.
     - No, hoje  sbado, posso dormir at tarde.
     - No pode, no.
     - Por qu? - reclamou Luna, sem sequer abrir os olhos. -0 Lo t no telefone?
     - No. Estourou o problema da Lara.
     - O qu?
     - Eu falei que era uma questo de tempo. E como uma boa amiga, voc vai se levantar, tomar banho e se arrumar. Voc precisa comear a ajud-la agora.
     - 
    
     Luna ainda limpava a baba quando leu as letras garrafais da manchete do jornal. Elas no deixavam dvidas: o problema de Lara era mesmo grave.
     
      Trfico de luxo SOCIALITE MILENA AMARAL  DETIDA COM OBRA DE ARTE AVALIADA EM US$ 15 MILHES EM AMSTERD
     
     Luna esfregou os olhos para ler direito. Abismada, abriu o jornal rapidamente para ver o que dizia a matria sobre a irm de Lara, que comeava assim:
     
      A estudante Milena Amaral, de 18 anos, foi presa ontem no comeo da noite no aeroporto de Amsterd ao tentar embarcar para a Frana com uma tela roubada de 
Van Gogh. A obra, de 1885, foi levada de um banco holands sete meses atrs e est avaliada em US$ 15 milhes. A polcia suspeita que Milena seja de uma famlia 
de traficantes de obras de arte cuja funo  transportar as peas roubadas para diferentes pases at que elas cheguem s mos do chefe da quadrilha, um colecionador 
americano. "Essa manobra  muito usada por bandidos para tentar despistar a polcia", conta o porta-voz da Interpol (Organizao Internacional de Polcia Criminal), 
John Scholte.
      Pai de Milena, o cirurgio plstico Alfredo Amaral tambm est sendo investigado e foi convidado a depor. Alm da priso por contrabando de obra de arte, a 
situao de Milena pode piorar, j que ela reagiu  priso com xingamentos, chutes e agresses aos policiais.
      O trfico de bens culturais  o terceiro maior tipo de trfico no mundo, atrs apenas do trfico de drogas e de armas. A Interpol vem acompanhando o crescimento 
desse comrcio ilegal e estuda as melhores formas de proteger o patrimnio cultural dos pases e punir os criminosos. Na maioria dos casos, as obras furtadas vo 
parar nas mos de colecionadores, antiqurios e donos de galerias de arte inescrupulosos que almejam aumentar seus acervos ou lucros. Segundo o cadastro da Interpol, 
mais de 120 mil obras de arte esto desaparecidas no mundo.
     A matria dizia mais, muito mais. Era grande, com direito a fotos de Milena e dos pais de Lara. Mas Luna no precisava ler mais nada. Sabia exatamente o que 
estava acontecendo, e se espantou seriamente:
     - Caraca!  esse o problema da Lara!
     - , Luna - disse a fada, sria.
     - Isso  o pior problema do mundo! Gente do cu, coitada dela! A famlia da Lara  uma famlia de traficas de obra de arte? Nunca desconfiei! Eu nem sabia que 
roubar quadro dava dinheiro! Vem c, ser que a Lara...
     - No tire concluses precipitadas! Ns no sabemos o que  verdade e o que  mentira nessa histria.
     - , voc tem razo. Mas tadinha da Lara! Ela deve estar pssima!
     - Dias muito ruins viro para a Lara. Dias que ela no teria fora para passar sozinha. Dias em que ela pensaria at em tirar sua prpria vida.
     - No! Ela no pode nem sonhar em fazer isso - espantou-se Luna.
     - Por isso voc precisa ajud-la a segurar essa barra.
     - Vou ajudar, claro. Mas como te falei, ela tem mil amigas, elas nunca deixariam a Lara passar por essa barra sozinha.
     - Falta muito pouco para voc descobrir que essa  a maior mentira que voc j disse.
     Antes de ir para o banho, Luna contou para os pais o problema de Lara, mas eles no entenderam muito bem seu interesse pelo assunto.
     - Lara no  a menina que brigou com voc ontem na escola?
     - , me...
     - Achei que voc no gostasse dela...
     - Eu no gostava, pai... Mas eu preciso ajudar a Lara.
     - Acho timo voc querer ajudar, s queria entender melhor essa sua aproximao com ela. Ser que esse  o momento certo? - questionou sua me.
     - Voc no disse ontem que ela  cheia de amigas que voc no suporta? - perguntou seu pai.
     - Ai, gente,  uma longa histria. Mas as amigas dela no so to amigas assim... Eu acho... Eu tenho que ir para a casa dela. Alguma coisa me diz que ela vai 
precisar muito de mim. Ser que vocs podem me levar l?
     - No  melhor ligar antes de ir?
     - 
     -        Me, ela pode nem estar atendendo o telefone. E ela precisa ter uma amiga do lado!
     Os dois se entreolharam e, mesmo cabreiros, ficaram orgulhosos da filha querer ajudar uma pessoa com a qual no se dava bem num momento to difcil. Depois 
que Luna se arrumou, levaram a filha ao prdio chique em que Lara morava em frente  praia. Acharam melhor no subir, j que no conheciam os pais da menina, e a 
hora no era exatamente convidativa para uma visita de estranhos.
     -        Filha, vai l e interfona. V se a Lara est em casa, se voc vai ficar com ela mesmo, se no vai atrapalhar... A gente est aqui esperando.
     Lara estava e pediu que ela subisse. Luna acenou para os pas da portaria e pegou o elevador.
     -        Luna! No acredito! Que bom te ver aqui! - gritou Lara, aos prantos, correndo para abra-la forte. - Minhas amigas nem me ligaram! - completou frgil, 
triste, exausta de tanto chorar.
     Foi ento que Luna percebeu que popularidade, beleza e dinheiro podiam comprar muita coisa, menos amigos.
     Era a primeira vez que algo abalava a paz dos Amaral. Ricos, bem-nascidos, famosos nas colunas sociais e bajulados por meio mundo, eles eram o retrato de uma 
famlia feliz.
     Amora, a me, era linda - linda com cara de rica. Sempre com as melhores roupas das melhores grifes, maquadssima, cheirosssima, penteadssma, altssima, 
nunca tinha um fio de cabelo fora do lugar. Num shopping gr-fino, tinha uma loja careira de incensos, roupas e acessrios para a prtica de ioga e nas horas vagas 
organizava jantares beneficentes.
     Alfredo, o pai, era um famoso cirurgio plstico, conhecido internacionalmente por sua habilidade com o bisturi. Deixava ainda mais belas beldades da tev e 
das passarelas e socialites podres de ricas. Corria no calado diariamente s sete da manh e s oito e meia j estava em sua clnica em Botafogo para operar.  
tarde, atendia em seu consultrio chique em Ipanema homens e mulheres endinheirados dispostos a melhorar sua relao com o espelho. Sua fixao por trabalho deixava 
Lara triste s vezes. Por causa da profisso, ele deixou de v-la em duas apresentaes de bal e teve que sair no meio de uma feira de Cincias da escola.
     Milena era a irm mais velha de Lara, uma jovem do tipo rebelde sem causa, que s se vestia de preto para bancar a dark, para fingir que no se preocupava com 
aparncia. Comprava coisas gticas de grife, no tomava sol e gostava de pintar os olhos de preto-preto-preto antes de ir para a escola. Seu semblante sempre srio 
parecia traduzir sua alma: arrogante, agressiva. Na infncia, seu passatempo predileto era puxar o cabelo das meninas mais novas do colgio quando elas passavam, 
Luna includa.
     Ela tinha ido passar seis meses na Europa depois de repetir o ano e entrar em crise sobre o que fazer da vida. No sabia se queria virar estilista, cantora, 
artista plstica, veterinria ou publicitria. E, como fazem os ricos de novela, foi viajar para dar uma espairecida" e aprender novas lnguas e culturas.
     A arrogncia parecia ser de famlia. Luna sempre achou os Amaral metidos, esnobes, nariz em p. O pai de Lara era do tipo que olha as pessoas de cima, com olhar 
superior. Nas colunas sociais, aparecia sempre rindo simpaticamente em festas badaladas ao lado de gente importante, como polticos, artistas e famosos em geral. 
No dia-a-dia, nem sequer dava bom-dia aos empregados.
     Suas filhas eram conhecidas como as riquinhas do colgio e, apesar de odiadas por uns, eram paparicadrrimas por vrios. Mas que fique claro: ningum se aproximava 
delas por amizade. As pessoas queriam mesmo ganhar um pouco de popularidade, algumas horas na piscina das irms, fins de semana na manso de Angra e convites VIPs 
para as melhores festas e shows. Foi o que Luna descobriu quando chegou ao enorme apartamento de Lara.
     - Nenhuma amiga minha veio me ver... Deve estar todo mundo com medo de se aproximar de uma... de uma... de uma criminosa... - disse Lara, soluando. - Eu no 
sou criminosa, Luna! Meus pais no so criminosos, nem minha irm ! Eu juro! Juro! - Desabou em prantos.
     - Calma, Lara, no adianta se descontrolar nessas horas.
     - Mas  tudo mentira! Esto dizendo que a clnica do meu pai  de fachada, que  s para lavar dinheiro, que a grana dele vem do trfico de obras de arte. No 
 verdade! Meu pai  viciado em trabalho, se tem uma coisa que ele ama  aquela clnica!
     - Eu sei, Lara... - disse Luna, antes de dar na amiga um abrao forte.
     - Obrigada por estar aqui comigo - agradeceu Lara baixinho, com os olhos inchados e o corao todo magoado.
     - , Lara, imagina...
     - A minha me desmaiou, quase teve um treco quando o telefone tocou de noite. Baixou mdico aqui e tudo, ela teve que ser sedada para dormir. Agora s chora, 
olha para o nada e fica repetindo que est morrendo de vergonha. O meu pai est transtornado, fumando um cigarro atrs do outro e no pra de falar no telefone - 
contou Lara, enxugando as lgrimas que no paravam de jorrar. - Foi barra essa madrugada aqui em casa.
     - Por que voc no me ligou?
     - Era muito tarde, e a gente no era... assim... amiga, n?
     - Disse bem. A gente no era. De agora em diante pode contar comigo. E pode ligar duas, trs, quatro horas da manh que eu vou sempre te atender, t?
     - T... - concordou Lara, chorando mais ainda. - Eu t com tanto medo... Medo de perder minha irm, meus pais, minha paz... A minha vida acaba sem eles... Acaba...
     - No fala isso. Vai dar tudo certo.
     - Como voc pode ter tanta certeza?
     Luna no tinha. Mas sabia que era a nica coisa que podia dizer naquela hora.
     -        Uma vez eu li na agenda da Nina uma frase que dizia mais ou menos assim: "No fim tudo d certo. Se no deu certo,  porque ainda no chegou ao fim."
 de um escritor chamado Fernando Sabino.
     Ao ouvir Luna, Lara ficou pensativa, em silncio. Parecia refletir o sentido de cada palavra. Mas por mais que sua amiga insistisse em injetar otimismo na sua
manh, ela no conseguia pensar noutra coisa, a no ser:
     - Minha irm pode ficar na cadeia por muito tempo se isso for verdade.
     - A Milena  inocente! Voc no acabou de dizer? No vai acontecer nada com ela! - afirmou Luna, logo percebendo a fisionomia tensa de Lara. - A Milena no 
 inocente?! - quis saber, curiosa.
     - No sei... - respondeu a menina, para choque de Luna. - Horrvel o que eu vou dizer, mas ela tem uns amigos estranhos na Europa... Uns caras que so viciados 
em jogos, rodam o mundo jogando fortunas em cassinos.
     - Caraca, nem sabia que existia gente viciada em jogo. Nem sabia que existia esse vcio.
     - Existe, e  pssimo. Pode acabar com a vida de uma pessoa, como as drogas. Vira-e-mexe esses dois amigos dela aparecem duros para pedir ajuda. Gente viciada 
gasta muito para manter o vcio, n? Sei l se eles no convenceram a Milena a roubar para dar o dinheiro para eles. No confio nada naqueles caras.
     - Srio?! - Luna arregalou os olhos.
     - Srio. A minha irm  do tipo que faz tudo pelos amigos. Para mim, nada. Para gente que ela conhece h meio minuto, tudo - soltou uma farpa. - Ela adora esses 
gringos,  supernfluencivel... Ela pode ter ficado com pena deles... sei l a histria que eles contaram!
     - Lara! T chocada! Seus pais sabem desses gringos?
     - Meus pais? Claro que no! Eles no sabem de nada! Eles so muito mais preocupados com a vida deles do que com a nossa. No se preocupam com quem a gente sai, 
aonde a gente vai, que nota a gente tirou... - desabafou Lara, olhos fixos no cho, chorando. - Se ela for presa, quer dizer, se eles forem presos, eu vou ficar 
sozinha, sem famlia.
     Uau! Lara abriu a torneira do desabafo e desandou a falar. A falar coisas que Luna nem sequer suspeitava. Tentou ajudar:
     -        Mas eles no vo ser presos, voc no disse que seu pai  inocente?
     Lara quedou-se pensativa por um instante. E desabou:
     -        Eu acho que ele , mas... olha quantos quadros tem na minha casa...  muita coisa! Ser que foi tudo comprado dentro da lei? E se enganaram meu pai 
e os quadros que a gente tem aqui forem roubados? - angustiou-se. - Eu posso ser presa tambm. No posso? Ser que podem me prender, Luna? -desesperou-se.
     Tadinha da Lara. Como a irm, uma pobre menina rica.
     - No fica assim, vai! Agora no  hora de chorar,  hora de pensar: voc acha que esses europeus tm alguma coisa a ver com a tela encontrada com a Milena?
     - No sei... Mas j imaginou a minha famlia na cadeia? Por anos e anos? - Lara agora chorava mais ainda.
     Luna estava pasma.
     - No, no pensa nisso! Nessas horas a gente tem que pensar positivo. Vai dar tudo certo.
     - Meus pais viajam amanh  noite para a Holanda para tentar resolver essa situao. Meus avs paternos esto no Chile, meus outros avs moram em Friburgo... 
Eu no tenho pra onde ir, vou ficar sozinha pela primeira vez na vida. Tudo bem que tem os empregados, mas vou me sentir sozinha do mesmo jeito... - contou Lara, 
assoando o nariz.
     Luna no precisou de muito tempo para pensar.
     - Sozinha? Nesse apartamento gigante? De jeito nenhum. Enquanto seus pais estiverem fora, voc dorme na minha casa.  pequena, mas  muito gostosa.
     - Mas no sei quanto tempo eles vo ficar fora, pode demorar...
     - No importa. Voc vai ficar comigo o tempo que precisar.
     - Srio?
     - Srio!
     - Voc no vai ligar para a sua me para perguntar se eu Posso dormir l?
     - Claro que no. Tenho certeza de que ela no vai se importar.
     - Mas eu no quero dar trabalho...
     - Que trabalho, menina? Vai ser um prazer hospedar voc. E como diz minha me, onde comem trs, comem quatro.
     -        Meus pais s vo viajar amanh. Quero ficar perto deles at l. Mas voc no pode dormir aqui hoje comigo? Vou me sentir melhor. A amanh a gente 
vai pra sua casa.
     -        Fechado!
     Os olhos apagados de Lara se encheram de luz e sorriram sinceramente agradecidos para os de Luna. Naquele momento, ela soube que tinha pelo menos uma amiga, 
e ela estava ali, bem na sua frente, quando ela mais precisava.
     Enquanto as duas se abraavam ternamente, Tatu as observava de longe, com gua nos olhos e uma certeza: as fadas-mestras tinham escolhido a pessoa ideal para 
ajudar Lara.
     
      
                            
                            
                            
     Luna ficou grudada com sua nova amiga o domingo inteiro, at a hora do embarque dos Amaral. Lara estava abatida, inchada de tanto chorar, mal conseguira dormir 
na noite anterior. Estava assustada com o caos que virara sua vida, a imprensa fazendo planto na porta de seu prdio, os amigos (os dela e os dos pais) sem dar 
as caras, a incerteza da situao de Milena, de seus pais...
     Alfredo e Amora, alis, tiveram uma conversa sria com a filha antes de ir para o aeroporto e garantiram: no sabiam de onde surgira essa histria, no eram 
formadores de quadrilha e no traficavam obras de arte. Eram 100% inocentes
     - Estou levando todos os comprovantes de compra de cada quadro pendurado no nosso apartamento. Vou provar a nossa inocncia. Foi tudo um mal-entendido, uma 
piada sem graa Que o destino nos pregou - explicou seu pai.
     - Mesmo aliviada, Lara derramou um monte de lgrimas.
     - , filha... no chora... Prometo limpar essa sujeirada que esto fazendo com a nossa famlia - disse ele, firme.
     - Lara respirou fundo, esforou-se para sorrir e perguntou o que estava martelando sua cabea:
     - A sua inocncia vai ser provada com as notas dos quadros, mas e a da Milena? Como  que voc vai fazer?
     - Vou pagar os melhores advogados e provar que ela  inocente. Eu tenho certeza de que a sua irm  inocente.  uma questo de honra trazer a Milena de volta 
ao Brasil em liberdade.
     - E a ns vamos deixar esse pesadelo no passado, querida, pode acreditar - consolou Amora.
     Lara estava mais confiante. Agora, sim, acreditava totalmente na inocncia dos pais. Nada do que dissessem ou insinuassem abalaria sua confiana neles. J em 
relao  Milena... bem, s vezes a menina afirmava com a maior convico do mundo que sua irm era inocente; outras, tentava espantar o pensamento inevitvel: "Ser? 
Ser que ela no tem culpa nenhuma?"
     A escolhida das fadas cumpriu fofamente seu papel de amiga acompanhando Lara at o aeroporto Tom Jobim. A menina queria ficar com os pais at o ltimo minuto.
     Antes de embarcar, Alfredo e Amora viraram-se para Luna e agradeceram, emocionados:
     - Muito obrigada por voc estar ao lado da Lara num momento delicado desses, Luna. Eu no sei o que seria dela sem uma pessoa bacana por perto.
     - Fico muito feliz de saber que a Lara vai ficar com voc enquanto estivermos fora. Cuida dela pra gente, t? - disse o pai.
     - Pode ficar tranqilo, tio. Eu e meus pais vamos tratar a Lara como se fosse da nossa famlia - respondeu Luna, orgulhosa, sentindo-se importante e madura.
     Despedida feita, as duas foram para a casa de Luna a bordo do carro importado dos Amaral, com Damio, o motorista da famlia, ao volante. Ele ficaria  disposio 
das duas enquanto os pais de Lara estivessem viajando.
     As meninas fizeram todo o trajeto at a casa de Luna de mos dadas, mas em silncio. Ao chegarem l...
     - Oi, Lara, muito prazer, eu sou a Marcela, me da Luna.
     - E eu sou o Otvio, pai dessa mocinha a.
     -        Olha, tem estrogonofe de frango e mousse de maracuj para a sobremesa, espero que voc goste.
     -        Imagina, tia. Vou adorar tudo o que a senhora fizer.
     - Senhora? Senhora t no cu, Lara! Pode me chamar de voc, t? - descontraiu a me de Luna. - O jantar est pronto. Vamos para a mesa?
     - Sua me  fofa - sussurrou Lara para a amiga enquanto se encaminhavam para a sala de jantar.
     A mesa, os pais de Luna, embora visivelmente nervosos com a situao da famlia de Lara, faziam de tudo para deixar a menina  vontade.
     -        Quero que voc se sinta em casa aqui, hein, Lara? Nada de fazer cerimnia. Se sentir fome mais tarde  s fuar a geladeira, sempre tem coisas boas 
l dentro - avisou Marcela.
     -        T bem, tia, obrigada - agradeceu Lara, tmida. Silncio se fez.
     - Hoje teve jogo no Maraca. Voc gosta de futebol? - perguntou Otvio.
     - No muito.
     - Qual seu time?
     - Flamengo.
     - Boa, menina!
     Risos tmidos e mais silncio. Otvio resolveu quebr-lo:
     -        Vai ser bom ter voc aqui esses dias. A Luna, quando era pequena, vivia pedindo uma irm, agora vai ser como se tivesse uma. Voc tem irm, Lara?
     - Otvio! - Subiu o tom de voz Marcela.
     - Pai! - repreendeu Luna. Que furo ele havia dado!
                            
     - Meu Deus, me desculpa! Que absurdo, claro que tem! Esquece, apaga! Desculpa, Lara!
     - No tem problema, tio. No precisa ficar nervoso. Vocs esto me conhecendo agora e, se no fosse essa histria toda, no saberiam se eu tenho ou no irm.
     - Lara, ns estamos do seu lado para o que der e vier. Estamos torcendo para tudo dar certo...
     - Vai dar tudo certo, me - interrompeu Luna.
     - Claro, vai dar tudo certo. Mas at l quero que voc olhe para a gente como uma segunda famlia. Sei que est sendo muito difcil para voc, mas se quiser 
desabafar, chorar, berrar, pode contar com a gente, t? Nossa casa  sua casa agora.
     - Obrigada, tia. Obrigada mesmo.
     - E ento, gostou do estrogonofe?
     - Maravilhoso. Vou at repetir, t? No comi nada hoje.
     - O estrogonofe da minha me  pssimo, voc jura que gostou? - ironizou Luna.
     - Pior  o arroz, uma papa s. Coitada da Lara... deve estar com fome, mesmo... - brincou Otvio.
     O clima descontraiu e o jantar prosseguiu otimamente. Ao terminarem, as meninas foram para a Casa da Luna.
     - Uau! Que quarto irado! Quantas luas, quantas estrelas... Quantos desenhos maneiros! - exclamou Lara ao entrar no quarto da nova amiga, embasbacada com tanta 
criatividade espalhada por to poucos metros quadrados.
     - Eu sei! - gabou-se a menina. - Eu que fiz tudo! Da maaneta ao mural com colagens.
     - As pinturas do teto tambm?
     - Tambm, claro.
     A conversa fluiu pouco, ambas estavam exaustas, suas plpebras logo comearam a pesar. O dia tinha sido esquisito, lento, triste. E tristeza cansava, isso as 
duas aprenderam.
     Quando Luna estava quase pegando no sono, sentiu um cutuco no ombro. No era Lara, era Tatu. Lara dormia profundamente no colchonete.
     - Onde  que voc estava? Sumiu o dia inteiro! Eu estava preocupada! Como  que me deixa sozinha sem saber o que fazer? - sussurrou, com medo de acordar sua 
nova amiga.
     - Pode falar normalmente, sua garota perguntadeira! Joguei ", sonho bom!" em todo mundo hoje, principalmente na Lara, ela estava precisando, s teve pesadelos 
desde a priso da irm.
     - Voc pode me dizer qual  o prximo passo, pode me dar uma luz? O que eu fao com ela agora?
     - O que voc t fazendo est timo, ela no precisa de mais nada alm de um ombro amigo.
     - Eu jurei que ela teria mil ombros amigos.
     - No te disse que ela no tinha amigos? Pelo menos no amigos de verdade.
     - E pensar que eu achei que ela, por ser popular, tinha o mundo nas mos.
     - Pois , agora que ela no  mais a rica, famosa e invejada da escola, acabaram os amigos. Eles eram amigos da imagem da Lara. A imagem dela ficou ruim, eles 
no pensaram duas vezes na hora de sumir.
     - Coitada. Estou com tanta peninha dela.
     - Prepare-se para ficar com mais pena amanh. E seja forte.
     - Como assim "seja forte"? O que vai acontecer amanh? No gosto de cdigos.
     - No posso dizer mais nada, Luna, tenho que ir.
     - No! Antes me diz o que vai acontecer amanh! Vo descobrir se a Milena  inocente ou culpada? A Milena  inocente ou culpada?
     - No quero falar sobre isso, vamos mudar de assunto, por favor!
     - T bom, t bom! - concordou. Mas depois de uma breve pausa, no resistiu: - ltima pergunta? S mais uma!
     - T - rosnou Tatu.
     - O pai delas  culpado ou  inocente? E a Milena? Trafica quadros caros mesmo? Eles vo ser presos? Tem a ver com a histria dos gringos que a Lara contou? 
A Lara vai ser presa? -perguntou, roxa de curiosidade.
     - Cinco perguntas. O trato era uma, portanto, no vou responder nenhuma. Agora vamos falar daquele aguado e sem-sal do seu namorado Lo? Francamente. Nem ligou 
para saber de voc... Meninos, humpf!
     - Que namorado? A gente s ficou! J te falei!
     - Ah, . Esqueci essa sem-vergonhice!
     - Quer fazer o favor de voltar para o assunto e me dizer se a Milena  inocente ou culpada?
     - A partir de agora, a gente s vai conversar quando a Lara estiver dormindo, tomando banho ou bem longe da gente, t?
     - No foi isso que eu perguntei! - irritou-se Luna. - Ela  inocente ou culpada?
     - No sei, mas se soubesse no diria. Voc tem que continuar amiga da Lara independentemente do desfecho dessa histria. Amiga  para isso, no importa o que 
acontea, est sempre ali.
     - Eu sei, eu sei! Eu vou estar com a Lara nas horas boas e ruins, pode ter certeza. Mas eu mereo saber!
     - Merece nada! Est fazendo muita pergunta chata, tchau, vou pra praia sentir cheiro de mar, deu saudade.
     - No, no mesmo! Tatu! No me deixa falando sozinha! Tatu! Volta aqui!
     Tarde demais. A fada tinha evaporado. Desta vez, sumiu e deixou no ar um pozinho azul muito brilhante, que tinha um gostoso cheiro de maresia.
     
     No dia seguinte, Luna fez um chocolate gelado para a amiga e levou para o quarto.
     - Normalmente eu como s uma ma ou uma fruta-do-conde de manh, mas como voc  hspede, fiz esse chocolate. Eu no boto acar, voc bota?
     - No, assim t timo. Hum... T uma delcia, parece milk-shake - disse Lara, bebericando seu caf-da-manh com os olhos inchados de sono e choro bem mais serenos 
com Luna por perto.
     -        No precisa exagerar, vai! - Riu Luna. Um breve silncio se fez no quarto colorido.
     - Brigada, viu? Por tudo - agradeceu Lara, antes de deixar cair uma lgrima.
     - , Lara... No chora... Eu estou fazendo por voc o que eu gostaria que uma amiga fizesse por mim.
     - Amigas... eu no sei o que  isso.
     - No diz bobagem! Voc tem vrias...
     - Ah, ? Cad elas? Cad a Ju, a Dani? - perguntou Lara, com o corao apertado, angustiado. - Eu achei que tinha amigas, achei mesmo que eu fosse querida... 
Mas ningum nem me ligou. Ningum.
     - 
     Luna lhe deu um abrao forte, esmagado, abrao de urso. Depois de mais uns soluos, Lara correu para debaixo do chuveiro para limpar as lgrimas e a tristeza. 
Era preciso se preparar para o dia que estava nascendo.
     
     A bordo do carro importado guiado por Damio, o motorista dos Amaral, a dupla aportou na escola pontualmente s 7h30, coisa rara para a dorminhoca Luna, que 
quase sempre se atrasava para o primeiro tempo. Assim que chegaram ao colgio, a menina percebeu que o problema de Lara estava s comeando.
      medida que Lara e Luna passavam pelos alunos, sentiram na pele o que  crueldade adolescente. O que se viu naquele estabelecimento de ensino foi o mais puro 
e cruel desprezo coletivo da histria das escolas. Pela primeira vez na vida, Lara encarou olhares raivosos e carrancudos e ouviu coisas do tipo:
     - Voc e sua irm, duas patricinhas cheias de pose... traficantes de quadros! Filhas de traficantes! Quem diria?
     - A gente no  traficante! - reagiu Lara, com todas as veias saltando ao pescoo.
     - Ah, no? Aqueles quadros todos da sua casa foram comprados legalmente? Duvido! - debochou um garoto.
     - Foram, claro que foram! E meu pai vai provar para todo mundo que ns somos inocentes! - disse, perdendo a fora da voz.
     - Quer dizer que  por causa desse dinheiro sujo que voc se acha melhor que os outros? - espetou uma gordinha.
     - No fala com ela, no, Sofia! Ela  de famlia de bandidos! E a gente no fala com bandido.
     - Bandido no merece nem bom-dia! - alfinetou outro garoto.
     - Voc c sua irm deveriam ser expulsas, acho um absurdo ter que estudar no mesmo colgio de duas criminosas - decretou uma guria de cabelos longos.
     Lara estava to magoada que no conseguiu responder. Quanto mais ouvia os desaforos, mais claro ficava: alunos mais velhos, mais novos... vrios estudantes 
de todas as sries pareciam ter se unido com um nico objetivo: humilh-la. Para tanto, viraram-lhe as costas quando ela passou com Luna e olharam-na com expresses 
de nojo e recriminao. O horror. s sete e meia da manh.
     A provocao feriu profundamente a alma de Lara. O choro subiu engasgado, chegou aos olhos, estava pronto para transbordar. Antes que isso acontecesse, ela 
correu em disparada na direo do banheiro mais prximo, para no derramar nenhuma lgrima em pblico.
     No caminho, seus olhos cruzaram com os de Pedro Maia que estava em silncio, parecia apenas assistir a tudo de camarote. Ela tinha certeza de que ele no a 
hostilizaria. Apavorada com a reao dos alunos e sentindo-se a pior pessoa do mundo, tudo o que ela esperava do menino que a beijara na ltima sexta-feira antes 
da priso de sua irm era um olhar cmplice, um sinal de ajuda, um gesto amigo.
     Lara acenou para Pedro Maia e deu para ele um meio sorriso tmido, porm sincero. No olhar lacrimejante, ela deixou claro para ele toda a sua angstia e o quanto 
ela precisava de um ombro acolhedor naquele momento.
     Pedro Maia fingiu que no a tinha visto. Pedro Maia fez Pior. Olhou para cima, como se fizesse questo de que Lara soubesse que ele no queria falar com ela.
     Que decepo!
     -        Pedro. Pedro? - tentou ela, assustada com a atitude do garoto.
     Pedro estava ao lado dos amigos e no lhe deu sequer um oi. Continuou a agir como um estranho e parecia ter total aprovao dos amigos, que diziam em voz alta:
     - Outra apaixonada, Pedro! Tu  demais, mermo!
     - Tu no perdoa! Tu destri o corao da mulherada!
     - Tu tem mel, cara! Ontem no shopping foi a Mari, da sexta srie, agora a Lara. Tu  meu dolo!
     Pedro Maia ouvia a tudo orgulhoso, sorrisinho cafajeste no rosto, peito empinado, parecia um rei sendo admirado pelos plebeus. Entre chocada e desapontada, 
Lara apressou ainda mais o passo pensando na tragdia em que sua vida se transformara do dia para a noite. Alm de tudo, seu ficante resolveu tirar a mscara justamente 
quando ela mais precisava dele. No que ela se julgasse namorada ou futura namorada do Pedro Maia, mas esperava dele uma atitude no mnimo decente.
     Luna viu a cena, ficou com dio mortal de Pedro Maia e foi atrs da amiga, gritando seu nome.
     - Voc, hein, Luna? At outro dia nem falava com a Lara, agora ficou amiguinha dela assim, do nada? - instigou uma menina da stima srie.
     - Acha que vai se dar bem, que vai andar de iate e ir para Angra? Ela no vai praquela casa to cedo! Se bobear eles vo ter at que vender a manso para pagar 
os advogados, porque o negcio t feio pro lado deles. Hora errada para se aproximar da ridcula.
     - Ela no  ridcula!
     Foi a que Tatu, at ento desaparecida, deu o ar da graa, puxando a orelha de Luna:
     - Nada de briga! Anda, anda! - disse a fada, que vestia uma inacreditvel roupa de bombeiro.
     - Pra! Eu quero defender a minha amiga! Solta a minha orelha! - gritou Luna para Tatu, sem pensar que a pequena multido  volta podia achar que ela era uma 
doida que falava com o nada.
     - No agora! Agora voc precisa ajudar a sua amiga!
     - Ela no  ridcula! - berrou Luna mais uma vez para a menina que tinha implicado com ela.
     Caminhando rpido rumo ao banheiro, Tatu explicou:
     - Ela foi ridcula com muita gente, voc e todas as suas amigas a chamavam de ridcula at outro dia, voc sabe. E ela no foi apenas ridcula. Soube ser esnobe, 
agressiva e arrogante quando quis. Humilhou vrios dos que esto sendo hostis com ela hoje.
     - , isso ... Caraca, neguinho no perdoa... cai em cima mesmo,  como se eles estivessem se vingando de tudo o que ela fez pra galera.
     - Claro!  por isso que ela est recebendo esse tratamento das pessoas. Ela sempre foi uma vaca com todo mundo aqui.
     - Ela no  vaca! E nem ridcula! - retrucou Luna, j distante da muvuca.
     - Se voc repetir que ela no  ridcula, eu te jogo o pozinho ", Pum Podre!" que voc vai ver s, ningum vai agentar chegar perto de voc e voc vai ficar 
sozinha! Sozinha pra sempre!
     - Eca! Que fada troglodita! Que nojo isso que voc falou! Fada  pra ser bonitinha, bo-ni-ti-nha! - estrilou Luna, nojinho total.
     Dito isso, a garota estacou, sua cabea voou pra longe, ela respirou fundo e perguntou, mesmo com medo de ouvir a resposta:
     
           
     - Voc acha que se no fosse voc, eu estaria fazendo coro com os outros alunos, tratando mal a Lara? - Luna sentiu um frio na espinha.
     - De jeito nenhum. Crueldade e injustia no combinam nada com voc.
     A menina ficou visivelmente aliviada. E feliz. Com a cabea momentaneamente livre de preocupaes, teve tempo de enfim reparar:
     - Que roupa sem noo  essa? - perguntou, analisando o modelito da fada.
     - Eu no vim apagar fogo? Quem apaga fogo  o qu? Bombeiro, uai! Agora deixa de convers, entra l! - determinou Tatu antes de desaparecer, deixando no ar 
uma fumacinha vermelha, claro, para combinar com seu look incndio.
     Luna entrou no banheiro feminino e logo ouviu os soluos de Lara, que chorava sentada de pernas cruzadas na tampa de um vaso sanitrio, de porta trancada.
     - Lara, vamos conversar - tentou Luna, grudada na porta que estava fechada.
     - Eu no quero falar. Vai embora, por favor.
     - Mas eu quero conversar com voc, vem pra c.
     - Eu no vou sair daqui. Nunca mais - desabafou Lara, assustada com o burburinho que aumentava do lado de fora. -Eu achava que algumas pessoas no iam com a 
minha cara, mas, pelo visto, ningum vai com a minha cara.
     - No  verdade...
     - Luna, eu no sou cega, eu vi o que est acontecendo l fora. Todo mundo me odeia. E quem no me odeia s me atura - choramingou. - Que barulho  esse?
     As duas no contavam com a surpresa que se aproximava no formato de algazarra. Gritos, palmas, assovios e palavras de
     ordem foram gritados por um grupo de alunos, que agora estava ainda maior e cercava o banheiro:
     - Aqui se faz aqui se paga!
     - Voc e sua irm nojentinha vo fazer pose na priso!
     - Vo comer comida de priso!
     - E suas roupas caras de grifes famosas? Vo ficar com quem?
     Aos poucos, o banheiro foi invadido por meninas com idades, tamanhos, pesos, ndoles e carter variados. Com medo, mas bancando a corajosa, Luna postou-se de 
braos abertos diante da porta do sanitrio em que Lara se encontrava, numa tentativa de proteg-la da galera enfurecida.
     - Daqui ningum passa!
     - Sai da, Luna! Essa patricinha precisa saber o que  ser zoada, o que  se sentir na pior, mais suja que esgoto. Essa menina me chamou de bunda gorda na frente 
de todo mundo. Trafica ridcula - reagiu Tuane, da stima B.
     - Pra com isso, gente! Os advogados da famlia dela esto cuidando de tudo! Foi um engano!
     - Sai da, sua puxa-saco! - disse Karla, uma fortona do segundo grau, dando um empurro que derrubou Luna no cho do banheiro.
     Lara, agora, alm de chorar suava frio, seu sangue parecia ter ido para o p. Ela tinha certeza de que no demoraria muito para aquela porta ser derrubada.
     - Vem pra c, covarde! Mostra a sua cara! Vem olhar no nosso olho e pedir desculpas por todas as grosserias que j fez com a gente e com meio colgio! - gritou 
Nbia, socando a porta do sanitrio de Lara, assustando ainda mais a menina.
     - Eia, eia, eia, Milena na cadeia! Ece, ece, ece, ela bem que merece!
     - Minha irm no merece ir pra cadeia! - reagiu Lara. - Sai daqui, gente, por favor! - implorou.
     - Isso  injustia, meninas! Ela t chorando! - bradou Luna, levantando-se do cho.
     - Ah, tadinha da mimadinha... T chorando, t? T mor-reeeendo de pena - debochou uma aluna da oitava srie.
     - O que mais ela poderia fazer alm de chorar? No sabe fazer nada a no ser gastar o dinheiro do pai e falar mal dos outros!
     - Filhinha de papai que gosta de desprezar os que no so ricos como ela!
     As meninas estavam enraivecidas. Parecia questo de honra espezinhar a esnobe que desprezava os que "no tinham bero", como Lara disse certa ocasio para uma 
aluna de sua sala. A situao comeou a ficar fora de controle. Luna estava acuada, queria sair para chamar a coordenadora, mas no podia deixar Lara sozinha.
     O medo fez o suor brotar na testa, o corao bater acelerado.
     -        Todo mundo para a minha sala, acabou a baguna! - gritou Veridiana, a coordenadora da stima srie, ao entrar no banheiro. - Deixem a Lara em paz! 
Se ela est com um problema, ns devemos ajud-la, no deix-la ainda mais triste! Uma vergonha o que vocs esto fazendo! Pra minha sala, j!
     Aos poucos, as meninas saram, cabea baixa. Foi ento que chegou Nazar, a diretora da escola, uma senhora de seus 50 e poucos anos, 1,90m de altura e escassos 
cabelos vermelhos que s era vista fora de sua sala nos eventos mais importantes da escola.
     -        Lara, voc pode sair para ns conversarmos? Reconhecendo a voz da diretora, ela abriu a porta e saiu, olhos vermelhos, nariz inchado.
     - Eu sei o que voc est passando, querida...
     - No sabe, no... T sendo muito pior do que a senhora imagina...
     - Lara, eu vim aqui para dizer que daremos todo o apoio que voc precisar. Para voc e para a sua famlia.
     - Obrigada, dona Nazar.
     - Agora o melhor a fazer  ir para casa. No se preocupe com ausncia na chamada... Ns realmente no espervamos essa reao dos alunos, eu quero conversar 
com as turmas, os professores, punir os envolvidos na baderna... Melhor voc ficar em casa uns dias.
     - Posso ficar com ela? Ela t dormindo na minha casa, os pais esto viajando... No queria deix-la sozinha...
     - Pode, sim, Luna. Depois eu ligo para sua me para conversar sobre as aulas que vocs vo perder. Vo pra casa, descansem, tentem se distrair... E lembre-se, 
pode contar comigo e com a psicloga do colgio... Somos todos uma famlia e s queremos o seu bem.
     Lara correu na direo da diretora e, apertando forte sua cintura, chorou um choro angustiado, abafado, porm agradecido. Luna, por sua vez, deixou uma lgrima 
cair discreta pelo canto do olho enquanto via o sofrimento da amiga.
     Era triste constatar que sem a mscara de durona, Lara era frgil, desprotegida.
     Foram para o apartamento de Luna. L, Lara desabafou:
     - Eu fui uma vaca. Vaca ridcula, sem noo! Com todo mundo naquela escola.
     - No, no fala isso!
     - Luna, est na cara que a galera no est me tratando assim s por causa da minha irm, que tambm no  muito chegada num sorriso. Eles querem se vingar da 
gente, da maneira com que eu e a Milena tratamos algumas pessoas...
     Lara ps-se a chorar. Luna no conseguiu dizer nada, sabia que era verdade, mas no achou que era hora de pisar ainda mais nos sentimentos e na auto-estima 
da garota. Garota que precisava falar, chorar, respirar:
     -        Se arrependimento matasse, eu estaria morta agora. Por que eu fui to grossa com o Paulinho-come-cabelo, a Diana-tnis-furado, a Ldia-cabelo-de-palha, 
o Ilan-cara-de-peixe, o Tita-fala-cuspindo, a Paty-cabeona? Por que inventei esses apelidos asquerosos? Por que tratei to mal gente que nunca fez nada para mim? 
Por que esnobei alunos que eu julgava no serem do meu nvel social? Por que no fiquei amiga das pessoas certas? Por que a gente erra tanto? E por que s quando 
acontece uma coisa dessas a gente se arrepende de ter errado?
     Luna ficou sem ao com tantos porqus. Mas arriscou dar uma de conselheira:
     - A vida  assim, cheia de erros e acertos. Uns erram mais, outros menos. Mas todo mundo erra.
     - Eu errei mais que todo mundo junto.
     - Mas est arrependida, o que te faz melhor do que muita gente junta.
     - De que adianta me arrepender se ningum nunca vai me perdoar?
     - Claro que vai!
     - O que eu passei hoje, Luna, eu no desejo pra ningum. Nin-gum! O colgio inteiro contra mim... como se no bastasse meu sofrimento e todos os pontos de 
interrogao na minha cabea, no meu corao...
     - , Lara, eu sei... Mas no foi o colgio inteiro. Foi um grupo. Aposto que um monte de gente no concordou com o que fizeram com voc. E j, j, isso passa 
e vai tudo voltar ao normal, voc vai ver.
     - Desculpa, t?
     - Desculpa por qu?
     - Por tudo o que eu te fiz.
     - Voc no fez nada...
     - Fiz sim. Fui grossa com voc outro dia, achei que voc estava a fim do Pedro Maia e s agora vi que ele  um idiota, no me deu o menor apoio, nem olhou pra 
mim.
     - Deixa disso.
     - E pensar que eu fiquei duas vezes com o palhao... -lamentou-se Lara. - Agora que a gente  amiga eu posso falar, s fiquei com ele porque ele  popular, 
viu? E porque ns dois juntos formvamos um casal lindo. Porque  garoto pra beijar mal!
     A escolhida de Tatu riu de Lara, que acabou rindo tambm. Luna fez cara de surpresa, no podia dizer que soube por uma fada que Pedro Maia tinha o beijo ruim.
     O riso no durou muito e logo deu lugar ao clima triste.
     - Eu vou mudar de escola. Vou para uma bem longe da nossa.
     - No! Voc estuda l desde pequena! Todos os professores te conhecem!
     - Nunca mais vou ter coragem de botar os ps naquele colgio. No quero estudar num lugar onde todo mundo me acha um monstro. Sem contar que no tenho como 
pedir desculpas para a galera, ningum vai querer me ouvir.
     - Que nada, que pessimismo fora de hora! As pessoas vo ver que voc est arrependida e vo te dar uma segunda chance. Todo mundo merece uma segunda chance, 
afinal.
     - At eu?
     - 
     -        At voc, Lara... Alm do mais, a galera vai ver que pisou na bola, foi horrvel o que eles fizeram hoje de manh. Agiram muito mal. Resolveram te 
dar vrios socos no estmago para revidar um tapa na cara.
     - Voc acha isso mesmo?
     - Claro!
     -        Mas eu no mereo segunda chance. Minha dinda vive dizendo que "aqui se faz, aqui se paga". No  preciso ser muito esperta para entender que  isso 
que t acontecendo comigo.
     As duas se abraaram forte. Luna no tinha nada a dizer, ela sabia que Lara estava certa, ela nunca fora bem-vista por vrios alunos da escola, agora, ento, 
com a priso da irm e a derrocada de sua famlia estampada nos jornais, os adolescentes estavam claramente revidando os maus-tratos e a postura esnobe da menina.
     -        O primeiro passo  se arrepender e querer mudar de atitude. Isso, por si s, j  muito lindo. Afinal, todo mundo erra. No foi Jesus que disse para 
atirar a primeira pedra aquele que nunca pecou?
     Lara desabou num choro sofrido, lotado de dor, angstia e vergonha. De si mesma, de seu passado, de suas atitudes. Por um lado, Luna sentiu pena da amiga. Por 
outro, uma alegria imensa por Lara ter descoberto tudo sozinha, ela no precisou dizer nada. Como amiga, ela entendeu que seu papel era ouvi-la, incentiv-la, faz-la 
esquecer os erros do passado, bot-la pra frente, lev-la a acreditar que tudo ia acabar bem.
     Invisvel para no interferir naquele momento desabafo, Tatu observava a dupla e se orgulhava de sua escolhida: Boa menina. Boa menina....
      noite, quando todos dormiam, a fada surgiu usando um vestido de seda escuro frente nica, rodado e estampado por pequenas flores coloridas.
     - Luna, estou muito orgulhosa de voc. Voc virou uma amiga e tanto para a Lara.
     - Tatu, que bom que voc apareceu, eu queria mesmo falar com voc sobre isso. Como  que num dia eu odeio uma menina e no outro adoro ajud-la? Ela  muito 
frgil, indefesa,  forte s por fora. O que eu mais quero  proteger a Lara. Por que isso t acontecendo? Voc jogou algum dos seus pozinhos em mim? Algum do tipo 
", protetora-de-riquinhas-que-se-arrependem-de-tratar-mal-os-outros!"?
     - Claro que no, Luna. Voc acha que existe esse tipo de pozinho? Impressionante, voc no entende nada de pozinhos! Ser esnobe, andar de nariz em p e pisar 
firme foi a maneira que ela encontrou para que ningum notasse sua fragilidade, sua timidez, sua insegurana. Maneira errada, diga-se de passagem. Mas as pessoas 
erram, como voc mesma disse. E ela descobriu isso com a sua ajuda.
     - Se no fosse voc, eu no ia saber que posso ajudar uma pessoa com um simples abrao, um olhar carinhoso, um sorriso sincero. Brigada, t?
     - Tolinha, mais cedo ou mais tarde voc descobriria que ela no  o monstro que voc pintava.
     - Como? Eu odiava a Lara, no gostava nem de ficar perto dela.
     - Voc no odiava a Lara. Apenas no ia muito com a cara dela.
     - Eu no ia nada com a cara dela.
     - , mas vocs j estavam predestinadas a serem amigas, eu s vim adiantar essa amizade.
     - Como  que ?
     - Ela no podia passar por esse problemo sozinha. Como vocs dizem hoje em dia, ningum merece passar por um problema desses sem ajuda. Por isso vim dar um 
empurrozinho e acelerar a aproximao de vocs.
     - Como assim voc sabia que eu ia ser amiga dela?
     - Alou! Essa misso quem me passou foi a Tininha, a fada responsvel pelo Departamento de Antecipao de Amizade!
     - Departamento de Antecipao de Amizade? No  possvel que exista um negcio desses!
     - Claro que existe, no faa pouco do meu trabalho, ele  muito importante!  o meu sustento!
     - O que fazem nesse departamento? - perguntou ela, descrente.
     - Criatura, voc no ouviu o nome do departamento? An-te-c-pa-o de a-m-za-deeee - soletrou a fada, vrios tons acima, como se estivesse falando com uma 
velha surda. -Portanto, o meu trabalho l  antecipar amizades, Luna! Fadinhas do cu, o que houve com essa menina, emburrou de vez?
     - No sou burra!  que eu nunca achei que...
     - Voc nunca achou que fada existisse, sua chatonilda, e olha eu aqui!
     - , isso  verdade...
     - E  verdade tambm que vocs no demorariam seis meses para virar melhores amigas. Estava escrito.
     - Qu? Escrito onde?
     - Ah, no, chega de pergunta. T com pacincia, no. Vai dormir, vai. Agora eu estou indo passear na Lapa. Vou aproveitar para dar uma sambadinha. Adooooro 
samba - disse a fada, arriscando uns passos. Danando, continuou: - Ns temos vrios sambistas famosos no nosso mundo, sabia? Fadinho da Vila, Fadinho da Viola, 
dona Ivone Fada, Zeca da Fadinha...
     -  - Zeca da Fadinha? Fala srio!
     Luna riu dos nomes dos sambistas do mundo das fadas (que mais pareciam genricos dos sambistas do nosso mundo) e da sambadinha um tanto desengonada de Tatu. 
E nem insistiu para ela ficar e explicar melhor aquela histria de antecipao de amizade. J tinha percebido que a fada, alm de falar birutices de vez em quando, 
era dada a um mistrio.
     
    
     
     
     
     O dia seguinte passou devagar, cada hora pareceu uma eternidade.  noite, os pais de Lara ligaram com duas notcias, uma ruim e outra boa. Lara quis saber a 
boa primeiro. Sua me contou que as acusaes de formao de quadrilha contra seu pai foram desmentidas, sua inocncia estava provada e a famlia livre de todas 
as denncias.
     Segundo a Interpol, a tal famlia procurada por traficar valiosas obras de arte tinha o mesmo perfil deles: pai mdico dono de clnica e duas filhas - uma coincidncia 
que piorou o problema dos Amaral por longas horas. S que as filhas do traficante tinham 24 e 26 anos, no 18 e 13, como Milena e Lara, e a clnica era de fachada. 
E mais: eles eram alemes, no brasileiros. No dia seguinte, os jornais estampariam em suas pginas a inocncia de Alfredo Amaral e famlia.
     - E a notcia ruim? - quis saber Lara, n na garganta.
     A parte ruim da histria era em relao  Milena, claro. A situao continuava tensa, angustiante. Nada que pudesse inocent-la fora descoberto.
     Lara caiu de choro na cama depois do telefonema. Chorou toda a tristeza que sentiu ao ouvir que a liberdade de sua irm continuava em jogo.
     Apesar de preocupada, a menina no demorou muito para pegar no sono. Estava exausta. Luna conseguiu entret-la durante todo o dia com jogos, imitaes e guerra 
de travesseiros. Tambm lhe ensinou a pintar, a fazer embaixadinhas e brigadeiro no microondas. As duas estavam cada vez mais unidas.
     O curioso  que mesmo dormindo, a ruguinha entre as sobrancelhas no abandonou o rosto de Lara. Afinal, sua irm corria o risco de ficar atrs das grades. "To 
nova! Tem tanta vida pela frente!", lamentou antes de dormir.
     Na segunda noite, os pais de Lara telefonaram novamente. Agora, sim, estavam aliviados. Uma cmera do aeroporto havia flagrado dois jovens conversando com Milena 
e um terceiro colocando um objeto cilndrico em sua mochila. No demorou para que a polcia descobrisse que os gringos eram franceses e faziam parte de um grupo 
de traficantes de obras de arte conhecidos por circular nas festas da alta sociedade, viajar de primeira classe e ter cara de bem-nascidos.
     Depois do jantar, Luna e sua me conversaram com Lara, que pela primeira vez foi vista sem a imensa nuvem negra sobre a cabea.
     - Bem que meu pai sempre diz, "bandido nem sempre tem cara de bandido". Por isso ele enche tanto o meu saco pra eu no falar com estranhos, n, me?
     - Isso mesmo, filha. Agora, como  que a sua irm foi cair numa dessas? - perguntou a me de Luna.
     - A Milena  supercarente, tia - respondeu Lara. - Quase no tem amigos,  solitria e triste, por mais que diga o contrrio. Basta se aproximar dela com um 
sorriso que ela se abre. Ainda mais sozinha, viajando. Ela devia estar mais carente ainda, n?
     - Sua me me disse por telefone que os gringos convidaram a Milena para uma festa chique num castelo nos arredores de Paris.
     - Os caras deviam ser simpticos, ter uma conversa legal... E a Milena  toda metida porque fala francs, adora praticar a lngua. Alm do mais, s pensa em 
festa. Num castelo, ento... Ela deve ter enlouquecido com a idia! Puxaram o assunto certo para enrolar a minha irm. Por isso ela ficou entretida na conversa e 
no percebeu quando o cara botou a tela enrolada na mochila dela - arriscou Lara. - Sem contar que a minha irm adora um gringo branquelo, se apaixona na hora.
     - Olha s... sotaque francs, beleza, boa conversa e roupas de grife foram o bastante para ela acreditar que eles eram to bem-nascidos quanto ela - opinou 
Luna.
     - Esse golpe  tpico: algum simptico se aproxima da vtima, puxa assunto para distra-la e a outro algum chega por trs de mansinho e rouba a pessoa ou 
faz o que fizeram com a sua irm - explicou a me de Luna. - Olha a como a gente no deve julgar ningum pela aparncia. Nem para o bem nem para o mal - completou 
seu raciocnio, aproveitando a oportunidade para dar uma lio para a filha e sua amiga.
     - T certssima, tia - concordou Lara, levantando-se e dando um beijo na me de Luna. - Vou dormir, gente. T batendo aquele sono, sabe? Boa-noite.
     Marcela e Luna ficaram mais um tempo na sala, conversando.
     - Eu estou muito orgulhosa de voc.
     - Por qu, me?
     - Pela sua forma de tratar a Lara, de se aproximar dela num perodo delicado desses... Voc est de parabns, est sendo uma fadinha na vida da sua amiga. Protegendo-a, 
ajudando-a, tudo isso no momento mais difcil da vida dela.
     Luna mal pde acreditar no que sua me dissera. Ela, uma fada. Que elogio bacana! Agora, que conhecia uma de perto, Luna sabia que ser fada no era para qualquer 
uma. "Que mximo que minha me pensa que eu poderia ser uma Tatu", comemorou internamente.
     - Eu acho que todo mundo merecia ter uma fada por perto em momentos difceis.
     - Engraado, filha, quando eu era criana, sabe que eu acreditava nessa histria de fada madrinha? Vivia querendo conhecer a minha. Criana tem cada uma...
     A adolescente riu com a me. Ah, se ela soubesse de toda a histria... Mas nunca saberia. Era um segredo seu. Seu e de Tatu, a fada mais legal do mundo das 
fadas. Despediu-se de Marcela com um beijo carinhoso e foi para o quarto dormir feliz da vida. Afinal, sua relao com a me estava a cada dia melhor.
     
     No dia seguinte, depois de novo interrogatrio, a situao de Milena estava quase resolvida, mas tinha um porm:
     - Ela  inocente, o problema  que ela agrediu os policiais - contou Lara.
     - Por que ser que ela fez isso? Achei que a Milena era agressiva s com crianas, no achei que ela seria louca a ponto de enfrentar policiais.
     - Ela no  agressiva, Luna! Ela disse para a mame que os gringos deram usque pra ela. Logo usque, que a Milena odeia o cheiro, odeia o bafo que deixa! Ela 
nunca bebe, no est acostumada, aposto que foi por causa da bebida que ela extrapolou - deduziu Lara. - O que me irrita  ela ser to sem personalidade, to maria-vai-com-as-outra








s. Bebeu s para agradar a uns caras que ela nem conhecia. E que podiam ter acabado com a vida dela, podiam ter tirado a liberdade da minha irm.
     - , mas pelo que a sua me explicou para a minha, essa questo da agresso pode ser resolvida com o pagamento de uma multa.
     - Uma multa bem salgada, com certeza. No quero nem pensar no castigo que minha irm vai levar dos meus pais quando chegar.
     - Castigo que ela vai adorar. Qualquer coisa vai ser muito melhor do que anos enjaulada na priso, pensa nisso.
     O andamento das investigaes saa diariamente nos jornais e Lara no via a hora de ver sua irm inocentada de vez. No s para poder respirar aliviada, mas 
para poder revidar a humilhao, os olhares raivosos e as ofensas ferinas que sofreu na escola. O que ela mais queria era urrar para o mundo que sua irm e seus 
pas eram inocentes, I-no-cen-tes.
     Lara podia at ter desconfiado das amizades da irm, mas uma coisa era certa: bandida, Milena no era. Nem ela, nem seus pais. Eles no precisavam traficar 
obras de arte para ganhar dinheiro, seu pai tinha o suficiente para sustentar o estilo de vida da famlia, vaidade era um negcio lucrativo para o cirurgio.
     A nuvem de preocupao estava cada vez menor, o que permitia que as novas amigas se entrosassem mais e mais.
     - Luna, minha fofolete, t na hora de depilar esse bigodinho, hein? Voc pre-c-sa fazer esse buo. Ningum merece menina bigoduda.
     - T bigoduda?
     - Bigodudsima! E tem o rosto to bonito!
     Luna ficou feliz e surpresa com o elogio da linda Lara.
     - Voc acha meu rosto bonito? - quis saber a bigoduda, olhinhos brilhando.
     - Claro que acho. O que estraga  esse matagal em cima da sua boca. Duas puxadas com cera quente acabam com isso e voc vai ficar mais bonita ainda. Minha depiladora 
 tima, vamos marcar para sbado que vem?
     -        No sei... morro de medo de sentir dor...
     -        Que nada! A dor  suportvel. A gente sofre para ficar bonita, no  boato essa histria. Mas eu vou estar l para apertar a sua mo. - Lara botou 
todo o seu lado patricinha para fora.
     Luna ficou visivelmente feliz por ver a amiga se preocupar com ela, com sua aparncia, sua pele. At sua dor.
     -        Eu precisava de uma patrcia para me dizer isso, porque eu jamais tiraria o bigode.
     -        Buo, Luna. Buo - corrigiu Lara, sorrindo. As duas riram juntas.
     -         o mnimo que eu posso fazer por voc.  muito pouco em comparao a tudo o que voc est fazendo por mim.
     
     Mais um dia se passou e finalmente Milena estava livre para voltar para o Brasil com os pais. Eles chegariam na manh seguinte, bem cedinho. Com a famlia novamente 
em solo carioca, Lara voltaria a dormir no aconchego de sua casa. Era sua ltima noite no apartamento de Luna.
     - Vou sentir saudade daqui. Da sua casa, da sua me, sempre to carinhosa, do seu pai, do seu quarto maravilhoso...
     - Tambm vou. Mas voc sabe que minha casa  sua casa. Sempre que quiser vir matar saudade do meu teto colorido  s tocar a campainha.
     - Olha que eu venho, hein? - brincou Lara.
     - Pode vir. Da prxima vez que voc vier, eu chamo a Bia Baggio e a Nina Dantas tambm. Elas vo adorar voc. E voc vai adorar as duas. E a gente vai ser o 
quarteto de amigas mais irado daquela escola.
     A conversa rolou at alta madrugada. Lara estava ansiosa, louca para o dia seguinte chegar logo e dar um abrao apertado nos pais e, principalmente, na irm, 
com quem no iria nunca mais brigar, jurara para si mesma.
     
    
     Assim que as meninas pegaram no sono, Tatu apareceu, acordando Luna. Dessa vez, ela estava diferente. Surgiu flutuando, suavemente, vinda do teto colorido envolta 
por uma luz dourada que sua escolhida nunca vira. E mais: seu rosto trazia uma estrela lils carimbada na bochecha, com um brilho ofuscante. Seus olhos estavam mais 
acesos que nunca, com clios espessos, escuros, que deixavam seu olhar ainda mais cintilante, mais expressivo. Vestido rosa e branco comprido, esvoaante, asas postias, 
cabelos cor de mel, cacheados e compridssimos, e uma varinha de condo completavam o look da fada. Para arrematar, Tatu trazia na boca um sorriso meigo de fada 
de livro infantil. Luna ficou boquiaberta.
     - Que roupa  essa? Que luz  essa?
     - No  assim que voc imaginava uma fada? Ento, resolvi fazer uma surpresa.
     - Que fofa! - exclamou Luna. - E essa estrelinha lils linda na sua bochecha?
     - Ela se chama Estrela da Felicidade.  feita de um pozinho carssimo, que lembra purpurina, mas se chama ", brilho danado de bom, s!". Eu, obviamente, comprei 
o meu com uma fada-camel que faz ponto perto da minha casa e vende pela metade do preo. A gente s usa em dias muito felizes. Dias especiais. E hoje  um dia pra 
l de especial. Tudo deu certo, voc e a Lara viraram amigas, voc foi tima com ela todo o tempo. Perfeita.
     - , Tatu... No fala assim, que eu choro. - Emocionou-se Luna. - Por onde voc andou? Estava com saudade!
     - Estive por perto todo o tempo, mas s para dar uma supervisionada, porque voc deu conta do recado direitinho. Estou orgulhosa da minha menina.
     Luna baixou os olhos, envergonhada, e sorriu feliz.
     - E a surpresa? Por que voc quis me fazer uma surpresa?
     - Porque... porque eu gosto de fazer surpresa nas minhas despedidas.
     - Despedida? Como assim?
     - Eu vou embora, Luna - disse Tatu, visivelmente triste. -Ento quis ser uma fada de verdade para voc, a fada dos seus sonhos, pelo menos no nosso ltimo encontro.
     - ltimo encontro? No! Voc no pode ir embora! Ainda tem muita coisa para acontecer. Tem o reencontro da Lara com as ex-amigas dela, sua volta s aulas, a 
conversa que ela vai ter com a irm, com a galera da escola... Voc no pode ir, Tatu... - reagiu, aflita.
     A fada precisou respirar fundo para dizer:
     -        Eu tenho que ajudar outros adolescentes, voc no precisa mais de mim por aqui.
     Luna estava chocada. Como assim aquela fada doidinha de quem ela aprendera a gostar incondicionalmente estava se despedindo?
     -        Voc no me disse que ia embora assim, de repente... Tudo aconteceu to rpido... Eu no quero que voc v, Tatu... - pediu, fazendo biquinho e com 
os olhos cheios d'gua.
     E ps-se a chorar, de cabea baixa. A fada pegou suavemente o rosto da menina, catou uma das lgrimas que rolaram pela sua bochecha e transformou-a num pingente 
de cristal em forma de gota. A menina arregalou os olhos, surpresa ao ver sua lgrima se solidificar ali, na sua frente.
     - Isso  pra voc nunca esquecer de mim - sussurrou Tatu, segurando o choro enquanto botava o cristal na mo de sua escolhida.
     - Eu nunca vou me esquecer de voc. A, na moral,  impossvel te esquecer, Tatu. Impossvel... - chorou Luna. - Vou sentir muito a sua falta... Muito mesmo... 
- completou, agora aos prantos, chorando por ela e pela fada.
     Mas o choro logo deu lugar ao espanto. O pingente comeou a aquecer sua mo e ela ficou muda, abismada. Enquanto suas mos esquentavam, ela viu seu quarto se 
transformar num quarto mgico. As pinturas do teto ganharam vida e comearam a se mover, assim como as das paredes. Ela precisou piscar vrias vezes seguidas, para 
certificar-se de que aquilo no era um sonho. Uma fumaa azul-clara envolveu a Casa da Luna com um suave cheiro de jasmim, e um pozinho brilhante que Tatu tirou 
do suti e jogou no ar deu ao lugar cara de superproduo cinematogrfica. Estrelinhas de vrias cores e tamanhos comearam a flutuar em volta da garota. Filme. 
Cena de cinema mesmo. Luna assistia a tudo boquiaberta, emocionada, com vontade de rir, chorar, gritar... Isso sim  coisa de fada, ela pensou.
     -  meu presente para voc. Desculpa, mas  o melhor que sei fazer. Eu te disse que no sou muito boa com magia, n?
     - Voc  tima, Tatu! Com magia, com adolescentes, com conselhos... com tudo. Odeio voc ter que ir embora! Odeio.
     - Eu tambm odeio essa parte. Ainda mais com uma escolhida to especial como voc. O Caso Lara vai ficar na minha memria por sculos e sculos. Alis, falando 
nela, cuide bem dessa amizade, viu? Ela  para sempre.
     - X comigo.
     - Agora vamos deixar de papo furado. D um abrao! -pediu a fada.
     As duas se abraaram longa e afetuosamente. Violinos se fizeram ouvir. Parecia o ltimo captulo de novela lacrimejante.
     - No, no foi violino que eu pedi! Que droga! Foi guitarra! Com a Pitty cantando ao fundo! Porcaria! - reclamou a fada, engraada como sempre, fazendo Luna 
rir. - Como  mesmo? Blom, blom, blom, xonga, xongagarra, violino bimbo sai fora e traz minha guitarra! No, no  assim... Ah... Violino  pssimo... Nada a ver 
com voc.
     - Eu t achando o mximo! - exclamou Luna, apertando ainda mais sua fada preferida.
     Aquele era o ltimo abrao que a menina daria naquele ser fantstico e encantador que entrara na sua vida no meio da noite e sairia no meio de outra.
     - Se eu soubesse que voc ia embora to rpido, eu teria te abraado mais, conversado mais com voc... Voc  nica, Tatu. E muito talentosa.
     - Pra, estou muito emocionada, assim eu vou chorar. E voc sabe o que acontece quando fadas choram, n?
     - Claro que no! Voc  a nica fada que eu conheo!
     - Quando uma fada chora de emoo, uma borboleta aqui da Terra se transforma em fada.
     - Ai, que fofo! Devem virar fadas lindas, pequenininhas, iguais s dos filmes! Imagina se as pessoas pudessem ter uma dessas em casa, que coisa mais meiga? 
Todo mundo ia querer uma!
     - Eu no su-porrrr-to as fadas-borboletas - disse Tatu, num tom mais alto do que o que normalmente usava, enfatizando cada palavra. - So metiiidas! - continuou, 
agora mais inflada ainda. - Elas se acham, s porque tm asas coloridas e so famosas. Famosas por nada, vale lembrar! Famosas sem talento e sem contedo, so apenas 
um rostinho bonito no meio de tantas fadas competentes que no tm seu valor reconhecido!
     - Nossa, por que tanta raiva das borboletinhas, tadinhas?
     - Elas so bobas, s sabem voar e danar, no fazem nada direito, derrubam tudo... Mas como so bonitinhas, acabam saindo nas capas das revistas e so sempre 
entrevistadas no Fadstico, o programa dominical mais visto da Rede Fada de Televiso.
     - Como  que ?        
     -  isso mesmo! No tenho a menor pacincia com as fadas-borboletas. E vamos mudar de assunto, por favor?
     - Vamos, mas antes me tira uma dvida?
     - Que ? - A fada continuava irritada.
     - Voc tinha me dito que fada no tem asa, mas se existem fadas-borboletas, fadas podem, sim, ter asas!
     -ou...
     A feio de Tatu mudou. Serissima, ela branqueou, dedo em riste:
     - Fadas, no! No diga bobagem! Fadas-bor-bo-le-tas!  outro tipo de fada. Elas so completamente diferentes!
     - Como assim? - Luna achou graa da irritabilidade de Tatu.
     - Quer saber? Vou falar, vou falar mesmo! Porque eu falo mesmo, no gosto daquelas lambisgias. As fadas-borboletas so um tipo beeem menor de fada. Perto delas 
eu sou uma fada top. Top, top, top - explicou Tatu, nariz em p.
     -        T bom, minha top fada, no vamos brigar por causa disso. - Riu Luna, enquanto esmagava aquele ser fofo num abrao.
     Quando achou que o assunto estava encerrado, a menina descobriu que sua fada era, assim, um tantinho ciumenta. E dizia isso  sua maneira.
     - Elas podem ser bonitas, mas eu tambm sou, t? T? E sou mais que elas, porque tenho uma beleza interior enorme! Isso sem contar que sou supergente boa.
     - E supermodesta, diga-se de passagem - divertiu-se a menina. Ela tinha entendido o recado. - Tenho certeza de que elas no se comparam a voc. Voc  simplesmente 
a melhor fada do mundo. Insubstituvel, inesquecvel, inenarrvel. A MINHA fada.
     - Eu sou tudo isso? Ooooba! - comemorou Tatu, empolgada, saltitante, batendo palmas.
     As duas riram.
     Finda a graa, as duas se afastaram para se olhar de frente, de mos dadas. E vivenciaram preciosos minutos de emocionado silncio. At que Tatu olhou no fundo 
do olho de Luna e revelou:
     - No fim das minhas misses, eu sempre dou um presente para os que me ajudam. Pode pedir qualquer coisa.
     - U, o meu quarto ficar com a cara de um filme de Hollywood j no  um presente?
     - . Mas como voc  especial e me chamou de "sua" fada, eu quero te dar mais um. Qualquer coisa. O que voc quer?
     Luna nem precisou pensar.
     - Flutuar.
     - Sabia que voc ia pedir isso!
     Luna, ento, comeou a sentir uma estranha sensao de formigamento nas mos, depois nos braos, nas pernas, nos ps, at o nariz formigou. Sentiu uma leveza 
indita, esquisita, porm gostosa. E no demorou a constatar: seu corpo agora tinha o peso de uma pluma. Flutuando, a fada puxou-a pela mo e ela, boquiaberta e 
de olhos arregalados, desafiando a lei da gravidade, comeou a flutuar tambm.
     Meio sem equilbrio, meio sem acreditar, com um medo enorme de cair, mas uma vontade imensa de prolongar ao mximo a experincia de no ter os ps no cho, 
em pouco tempo ela estava perto do seu teto colorido, com um sorriso embasbacado no rosto e sentindo-se uma astronauta.
     -        Caraca! Que irado! - exclamou Luna, sem tirar o sorriso dos olhos.
     -        Irado? Voc no viu nada! Vem comigo. Tatu puxou a menina pelo brao e as duas entraram nas pinturas do teto que Luna fizera com tanto carinho, com 
tanto apreo. Tudo ali era real, por mais sonho que parecesse. Deram uma volta na casa amarela de telhado rosa, subiram na goiabeira de folhas verdes e azuis (a 
tinta verde acabou e a "artista" precisou improvisar com o que tinha), escorregaram numa lua amarela, danaram no palco do teatro que Luna inventara, flutuaram junto 
ao cometa que brilhava no escuro ao lado de outras estrelas, pareciam dois personagens de desenho animado. Que noite especial!
     Assim, no meio da madrugada, Luna conseguiu o impensvel: um passeio flutuante pelo seu quarto, pelo cu do seu teto, por sobre sua cama. A experincia de no 
sentir a fora da gravidade foi uma das mais hipnticas de sua vida.
     -        Que tal?
     -        Muito obrigada, Tatu, eu nunca vou esquecer esse dia! E nunca vou poder contar pra ningum, porque ningum acreditaria nisso!
     A fada ficou feliz e comemorou com uma cambalhota no ar.
     -        Tenta!
     -        No! - reagiu Luna, doida para experimentar. - E se eu cair em cima da Lara?
     -        No vai cair. Tenta! Finge que voc est numa piscina. Encantada por estar flutuando, extasiada com a sensao de liberdade e prazer, Luna resolveu 
tentar. Usando os braos para botar a cabea pra frente, meio estabanada, a menina conseguiu dar uma cambalhota no ar. Depois, de costas. A se empolgou de vez e 
no teve mais jeito: fez passos de bal, nadou, deu braadas apatetadas... Tudo isso dentro do seu canto preferido na Terra: o seu quarto.
     Como despedidas eram difceis para Tatu, ela deixou a escolhida se divertindo. Numa das cambalhotas, ela jogou em Luna o ", sonho bom!", para que depois das 
piruetas areas ela emendasse numa naninha gostosa e nem a visse partindo.
     Quando Luna enfim caiu no sono, a fada se aproximou dela, levou-a at sua cama, cobriu-a, deu um beijo em sua testa e despediu-se baixinho:
     -        Tchau, Luna. Obrigada por tudo. Vou sentir muita saudade. E desapareceu.
     
      
     
     O sol mal tinha nascido quando Lara se levantou num pulo. Naquela manh, seus pais chegariam com sua irm, ela precisava ir para casa. Sentia que sua vida, 
enfim, comeava a voltar ao normal.
     Antes de voar para o chuveiro, ligou para o motorista de seu celular, tomando cuidado para falar baixinho, para no acordar Luna, que dormia profundamente, 
ainda sob o efeito de ", sonho bom!". Pediu para ele apanh-la em meia hora e foi para o banho. Trocou de roupa e, j pronta, olhou com carinho para cada canto 
daquele quarto, aquele quarto que a acolhera to bem, to afetuosamente. Sentou-se na cama, aproximou-se de Luna e chamou seu nome.
     - J acordou? Nem botei despertador! - espantou-se a menina.
     - Estou to ansiosa que nem sei como consegui dormir. Acordei muito empolgada, estou esperando esse momento h dias.
     - Imagino - balbuciou Luna, ainda muito sonolenta, um olho fechado, outro querendo abrir.
     - Desculpe te acordar. Foi s para te dar um beijo e agradecer por tudo.
     -        No tem nada que agradecer. Foi um prazer ter voc na minha casa.
     -        Eu adorei passar esses dias aqui. Voc me ajudou muito.
     - Como  que voc vai pra casa? - Os dois olhos de Luna se abriram de repente, preocupados.
     - O Damio j est l embaixo. E a Milena vai chegar com meus pais a qualquer momento.
     -        , Lara... no quer que eu v com voc?
     -        Imagina. Te acordar cedo assim  uma crueldade. Dorme mais, quando acordar me liga.
     - ?
     - .
     -        Beleza. Se cuida. Mais tarde a gente se fal... - Luna caiu no sono antes de terminar a frase.
     
     Lara chegou em casa poucos minutos antes de seus pais. Assim que Milena chegou, correu na direo de Lara e deu nela o abrao mais longo e apertado que j dera 
em toda a sua existncia ao lado da irm. As duas no disseram uma palavra. S choraram. Muito. Seus pais se aproximaram e o abrao duplo virou qudruplo. Abrao 
apertado, emocionado, abrao que valeu mais que mil palavras. Se as paredes tivessem olhos, certamente eles estariam arregaladssimos, surpresos por ver, enfim, 
um momento realmente afetuoso naquela imensa sala.
    
     Os Amaral nunca foram muito chegados a um carinho e s se abraavam em datas especiais. Mas abrao chocho, apenas cordiais tapinhas nas costas e olhe l.
     Milena estava abatida, parecia estar voltando de uma guerra. Arrependida, com a auto-estima no p, triste por tudo que causou para a famlia, envergonhada. 
Mas mesmo assim contou para sua irm os dias de horror que passou, a cadeia, o medo, o frio, a incerteza, a repercusso do episdio... E ficou mais deprimida ainda 
quando soube que Lara fora hostilizada por causa dela.
     - Mil desculpas, La... Mil desculpas... - implorava, aos prantos.
     - Desculpa por qu?
     - Por tudo. Por minha causa voc deixou de ser a queridinha do colgio e perdeu suas amigas...
     - Que amigas? Elas no eram minhas amigas. E quer saber? Se essa histria no tivesse sido to horrorosa, eu at te agradeceria, viu?
     - Agradeceria?
     - , por me fazer ver que ter a sua amizade  mil vezes melhor do que ter popularidade na escola. T nem a para ser popular. De que adiantava ser popular se 
as pessoas s gostavam de mim superficialmente? Ningum era meu amigo de verdade, Milena, e eu descobri isso a tempo. Por sua causa.
     - Lara, no precisa falar essas coisas para me animar, vai...
     - Que pra te animar? Voc j se tocou que, se essa tragdia no tivesse acontecido, a gente jamais estaria conversando sem brigar, como duas amigas, como agora?
     - , voc tem razo. Nossas conversas no duravam mais de dois minutos.
     -        Isso quando voc estava de bom humor, porque normalmente elas no chegavam a um minuto - implicou Lara, fazendo a irm rir.
     O bate-papo rolou at a noite, as duas falaram tudo o que nunca conversaram em 13 anos de convivncia: moda, meninos, esmaltes, meninos, msica, astrologia, 
meninos, famlia, bichos, novela, meninos...  noite, pouco depois que Luna ligou para saber de Milena, as irms resolveram dormir no mesmo quarto, como no faziam 
havia muitos anos. Queriam ficar perto uma da outra, recuperar o tempo perdido.
     Lara sentiu-se especial por fazer Milena rir e esquecer-se aos poucos do drama que passara. Milena gostou de verdade da sensao de conforto e proteo que 
teve na companhia de sua irm caula, sua nova e grande amiga.
     Na manh seguinte, Lara pulou da cama. Estava louca para ir  escola, olhar na cara de cada um que a hostilizou. Ainda no sabia o que fazer ou dizer, mas que 
ia dar o troco, ah, isso ia! Tinha decidido desde o dia em que sua irm e sua famlia foram inocentadas.
     Passou na casa de Luna para busc-la, no queria chegar sozinha ao colgio. Foram para a sala da diretora, que saudou a dupla com carinho e um sincero sorriso:
     - Luna, parabns por ter sido uma amiga to presente e por ter ajudado tanto a Lara. Lara, meus parabns por ter reagido bravamente, por no ter deixado que 
a opinio dos outros abalasse sua confiana de que tudo ia dar certo. Olha a, tudo deu certo! E est todo mundo engolindo o que disse sobre a sua irm e sobre voc.
     - Pois ... sobre isso... ser que... ser que eu no posso ir s salas de aula falar com a galera, explicar o que aconteceu?
     - 
     -        Claro que pode! Adorei a idia! E quer saber de uma coisa? Eu vou com voc, para ter certeza de que no vo te maltratar de novo.
     Dona Nazar, a diretora que nunca saa de sua sala de janelas gigantes e com vista para o verde, finalmente deixaria a bat-caverna, como os alunos chamavam 
seu escritrio. E mais: para andar nos corredores como uma simples mortal, ao lado de Lara. A menina sentiu-se importante. E, muito melhor do que isso, querida.
     - Caramba! A senhora vai entrar nas salas comigo? Por essa eu no esperava... - espantou-se Lara.
     -  bom esticar as pernas de vez em quando. Alm do mais, fiquei muito chateada com o que aconteceu naquele dia. Quero ver a reao deles agora, que est tudo 
resolvido.
     Nesse momento, Lara ficou pensativa, distante. Parou por alguns segundos, refletiu e abriu um sorriso:
     -        Vamos l, dona Nazar?
     As trs seguiram para uma turma da oitava srie. Dona Nazar anunciou a entrada de Lara, que depois do oi, gente, comeou, sem ensaio e sem rodeio:
     -        Antes de tudo, quero pedir desculpas para vocs.
     A galera ficou cheia de pontos de interrogao na cabea. Luna ficou cheia de pontos de interrogao na cabea.
     - Desculpas? Enlouqueceu ou est fazendo tipo? - perguntou o Z Renato.
     - Eu era louca antes, quando era uma ridcula com todo mundo. O jeito com que vocs me trataram foi um recado. E eu entendi esse recado. A atitude de vocs 
foi o troco por eu ter sido arrogante por tanto tempo. Prometo que vou tentar melhorar. Enquanto isso, gostaria de ter a chance de conhecer melhor cada um de vocs 
e gostaria tambm que vocs me conhecessem melhor. Eu sou gente boa, juro! Era um pouco metida, sim, mas vou mudar, prometo.
     - Um pouco metida? - fez graa o Douglas, skatista da turma.
     - Muito, muito metida - reconheceu Lara. - Aprendi demais com essa histria toda, no desejo para ningum, nem para o meu pior inimigo, o sofrimento que passei 
com a minha famlia. A gente viveu dias interminveis, de muita dor. Imaginar seus pais e sua irm, inocentes, atrs das grades  o pior pensamento que uma pessoa 
pode ter - disse ela, prendendo o choro.
     - P, Lara... a... foi mal, a... A galera perdeu a noo, todo mundo se arrependeu naquele dia mesmo, a... Desculpa... em nome de toda a classe - disse Natlia, 
a representante da turma.
     Dona Nazar, de olhos molhados, puxou entusiasmados aplausos. Estava realmente tocada com a atitude e a coragem de Lara, que encarou seus colegas de frente 
com muita dignidade e ainda fez um discurso emocionante, no se deixando levar pelo desejo de vingana, de dar o troco. Luna, por sua vez, estava completamente abobada. 
E orgulhosa. Mas comeava a desconfiar de que tinha o dedo de Tatu nessa histria. Lara estava diferente, calma, branda, tranqila, feliz. Em paz. No era cena. 
Seu discurso era genuinamente verdadeiro, vinha do fundo da alma, isso Luna podia garantir.
     Foram em todas as turmas cujos alunos tinham-na hostilizado. E a surpresa era sempre seguida de sincero perdo. Mtuo.
     Os alunos foram bem legais com a Lara. E a Lara foi muito legal com todo mundo. At com suas amigas rosinhas, Gisele, Daniele e Juliane. Com o trio, Lara foi 
mais que legal, foi magnnima. Ela perdoou s trs, que justificaram seu sumio dizendo no saber de nada. Que mentirosas!, pensou na hora. Mas como aquela amizade 
no valia mais nada, ela preferiu aceitar os abraos falsos do trio em silncio, em vez de se desgastar discutindo. Sorriu e virou as costas s suas ex-melhores 
amigas para voltar  sua peregrinao pela escola ao lado de sua nova best, como ela chamava Luna, numa abreviao de best friend, "melhor amiga" em ingls.
     Logo chegou a vez da turma de Pedro Maia. Depois do breve discurso que fez em todas as salas, Lara acrescentou, olhando nos olhos dele:
     -        Essa histria me ensinou muito. Aprendi que s vezes a gente confia em quem no deve confiar, e isso d um buraco muito sinistro no peito. Aprendi 
tambm que beleza fsica no  essencial. De que adianta ser bonito por fora e no ser bonito por dentro, no ter carter? De que adianta ser bonito e s conversar 
assuntos idiotas? De que adianta ser bonito e beijar muito, muuuuito mal, com lngua dura e rotao do tipo liqidificador? Nada!
     Dona Nazar ficou chocada com o comentrio, mas deixou passar. Achou melhor no se meter. Luna arregalou os olhos. A turma inteira explodiu numa gargalhada, 
Pedro Maia ficou da cor de um pimento e Lara virou-se para a porta, com um sorrisinho campeo escancarado no rosto. Decidida, e orgulhosa, saiu da turma.
     Contas acertadas, era hora de voltar  vida normal. No carro, as duas engataram uma conversa super-ultra-mega-mportante:
     - Luna, vamos ao salo amanh fazer uma escova?
     - No fao escova, gosto do meu cabelo ondulado.
     - Srio?
     - Srio. Eu se fosse voc deixava o seu ao natural tambm. Seu cabelo  lindo, cacheado.
     - C acha? - espantou-se Lara. - Ele  to quebrado, to ressecado...
     - Porque voc faz escova sempre. Passa uns dias sem usar secador para ver como seu cabelo vai melhorar. Secador acaba com o cabelo.
     - Eu, assumindo meus cachos? Ser que eu vou gostar? Meu cabelo  to volumoso...
     - Ele  lindo, vi quando voc dormiu l em casa e no secou. Uma mudada bsica no faz mal a ningum. D uma chance ao seu cabelo, Lara! - implicou Luna. - 
Se voc no gostar dele ao natural, passa a fazer escova de novo.
     - Ser que vo achar que eu fico bem com meu cabelo ao natural?
     - Voc realmente liga para o que as pessoas pensam? No  possvel! Ainda mais depois de tudo que aconteceu!
     - , voc est certssima. Por que se importar com o que as pessoas dizem ou pensam?
     - Pois ! As pessoas sempre tm uma opinio formada sobre tudo.  muito melhor levar a vida sem se preocupar com os outros, Lara! Ningum tem nada a ver com 
o que voc faz. Desde que voc esteja bem e feliz, para que se preocupar com o que vo pensar? Vo pensar, sempre. Sabendo disso, e sabendo que  impossvel controlar 
o pensamento das pessoas,  s agir sem se importar com a reao delas. Tudo fica muito mais fcil assim.
     - Caraca! Bato palmas pra voc, Luna! Admiro muito essa sua maneira de ver o mundo. Juro que vou tentar pensar dessa
     forma daqui pra frente. E vou conseguir! E quer saber? Vou assumir minha cabeleira, sim! Acho at que vou cortar, dar uma radicalizada!
     - Isso! Assim que se fala! Voc vai adorar ficar livre do secador. Sem contar que  sempre bom mudar de cara, ainda mais depois de uma mexida dessas na vida.
     - Ta, voc me convenceu. Vamos ver se me agento sem cabelo liso. - Riu Lara.
     - Vamos l pra casa? A minha me te chamou para almoar com a gente.
     - Imagina se eu sou louca de dispensar o rango da sua me! S no posso demorar muito, t? Quero ficar o maior tempo possvel com a minha irm. A gente vivia 
brigando antes de isso tudo acontecer, mas agora a gente t grudada.
     -        Que irado!
     -        Nunca achei que um dia eu ficaria to feliz s com o fato de olhar para o lado e ver que ela est ali, perto de mim. Ela est louca pra te conhecer, 
de tanto que eu falei de voc.
     -        Eu tambm estou louca para conhecer melhor a Milena.
     -        Amanh ela vai me levar na exposio de uma amiga dela que  artista plstica. Primeira vez que ela me chama para sair, primeira vez que ela vai me 
apresentar para uma amiga. Estamos, finalmente, virando amigas uma da outra. No  tudo de perfeito?
     -         muito perfeito! Muito perfeito!
     As duas pularam e se abraaram no banco detrs do carro, observadas pelo retrovisor por Damio, que sorria genuinamente satisfeito.
     
    
     
     
     Quatro meses se passaram. Luna sentia muito a falta da fada. Nos primeiros dias, ento.... Chorou vrias vezes com saudade da presena e do alto-astral daquela 
doidinha de apelido esquisito que entrava em seus pensamentos sem pedir licena e usava roupas divertidas. Passou as noites tristonha e calada por pelo menos trs 
semanas. Tentava se convencer de que algum dia se acostumaria a viver sem ter Tatu por perto.
     Agora, com sua rotina de volta ao normal, ela gostava de aproveitar a companhia de suas amigas deste mundo mesmo. E a preferida, a essa altura, era sua fiel 
escudeira Lara, que assumira de vez seus cachos num corte mais curto, mais ousado. Agora ela era uma menina cheia de personalidade. As duas estavam mais grudadas 
que chiclete mastigado em sola de sapato e viraram as melhores amigas de todos os tempos, a maior dupla dinmica que o planeta Terra j viu.
     Faltava pouco para Luna completar 14 anos. A data to esperada seria comemorada com festona na cobertura de Lara, com direito a DJ conhecido e comidinhas de 
buf famoso, tudo presente dos Amaral.
     - Vamos ao shopping? Preciso comprar a roupa pra festa, meu nver  daqui a trs dias e eu ainda nem sei que estilo eu quero usar.
     -        Shopping? Ajudar a escolher roupa? Luna! T perguntando se macaco quer banana, n? Vou passar a agora com o Damio. Quando estiver chegando, eu ligo 
para voc descer.
     Em menos de uma hora, as duas estavam saracoteando pelo shopping vendo vitrines, perguntando preos de prendedores de cabelos, livros, revistas, CDs, comendo 
hambrguer... ah, sim!, e experimentando roupas para a festa.
     Duas horas de shopping depois, Luna comeou a ficar cansada de tanto andar e no encontrar o que queria. Lara ainda agentaria por mais duas horas, mas Luna 
talvez capotasse em 30 minutos.
     - T ficando de saco cheio, no t gostando de nada, nada tem a minha cara. Eu queria bater o olho numa roupa e falar: " essa!" Eu tenho que amar! Tem que 
ficar perfeita em mim! Poxa, 14 anos so 14 anos, n?
     - Calma, vamos andar mais, a gente vai encontrar uma roupa linda!
     -        E barata.
     -        E barata! Vamos, anda, espanta a preguia! Entraram numa das lojas preferidas de Luna, com roupas alegres, diferentes, fora do comum. Ela pegou vrios 
vestidos para experimentar. Cismou que queria ir de vestido, nada de cala jeans e batinha preta. Lara, claro, aproveitou e, como nas outras lojas que entraram, 
experimentou umas peas tambm. J que seria a anfitri, queria vestir uma roupa nova na ocasio.
     Quando saiu da cabine para se analisar num espelho maior, Luna viu o que seus olhos queriam ver havia muito tempo: Tatu. Era ela mesmo! Uns cinco quilos mais 
magra, com roupa adequada aos anos 2000 (cala jeans, tnis e camiseta branca deixando ver um pouco da barriga), mas definitivamente era ela! Com cabelo ao vento 
e seus inconfundveis e cintilantes olhinhos, Tatu no demorou para cruzar seus olhos com os de Luna, que a encarava encantada, sem piscar, boquiaberta.
     Sem parar de olhar uma para a outra, com a respirao mais rpida por conta da emoo do reencontro, as duas abriram enormes e escancarados sorrisos. Emocionados 
sorrisos. Tatu parecia vir em cmera lenta na direo da menina, que no via a hora de entrar numa cabine para poder dar um abrao esmagado na fada.
     -        O que voc acha dessa saia, Lu?
     -        ? Oi? Desculpa, Lara... T linda, mas... acho que prefiro a outra... - respondeu Luna, olhando para o lado, com medo de perder a fada de vista.
     - Que foi? Voc est estranha...
     - T no.
     - T, sim. Achou horrvel e no quer me falar.
     - Imagina, Lara...
     - Ento o que foi?
     -  que... eu achei que... - gaguejou Luna.
     - Achou o qu? Fala!
     - Achei que...
     -        Ela achou que estava maluca porque me viu. Pensava que eu ainda estava morando fora do pas, n, Luna?
     -        Quem  voc? - quis saber Lara.
     -        Pode me chamar de Tatu. Eu e a Luna somos grandes amigas. Infelizmente no nos vemos tanto quanto gostaramos, mas sentimos um amor imenso uma pela 
outra.
     Luna estava espantada, at parou de respirar, tamanho o susto. Como assim Lara estava vendo (e conversando com) a sua fada?
     -        Oi, eu sou a Lara. O que voc acha dessa saia, Tatu?
     
     - Linda. Reala o tom da sua pele.
     - E voc, Lu?
     - Linda... - respondeu Luna, ainda atordoada.
     - No senti muita firmeza... Vou botar a outra para vocs baterem o martelo. Alis, por falar em bater martelo, voc t linda com esse vestido.  a sua cara. 
Acho que voc finalmente encontrou a roupa da festa.
     Luna sorriu e Lara voltou para a cabine.
     - Como assim a Lara pode te ver?
     - Eu estou materializada, tolinha.
     - Como  que ?
     - Agora eu fao isso. Estou fazendo o maiorrrr sucesso com os gatinhos, estou uma deusa, esto todos me olhando quando eu passo! - disse, nada modesta, como 
sempre.
     Luna riu, riu muito. Que bom estar ali com aquela fada figuraa. Parecia que tinham se visto no dia anterior, tamanha a sintonia.
     - O que voc t esperando para me dar um abrao, hein? - quis saber Tatu, tascando na menina um abrao esmagadao que quase tirou seu equilbrio.
     - Que saudade, Tatu!
     - Muita saudade, muita saudade!
     - E esse corpo, e esse cabelo? Voc  uma nova mulher. Uma linda mulher!
     - Eu sei, t um espetculo de fada, no t? Um arraso!
     - T maravilhosa!
     - Agora eu estou malhando, indo ao salo... Agora eu tenho tempo para cuidar de mim. Depois da Misso Lara recebi muitos elogios e... fui promovida!
     - Oba! Parabns! Promovida a qu?
     - Mocinha, a senhorita est de frente para uma... fada snior! Tchan! - contou, orgulhosa, sorrindo de orelha a orelha e com as mos espalmadas e tremelicantes 
perto do rosto.
     - Que tudo! Parabns!
     - Parabns para voc, que me ajudou a realizar minha misso.
     - Quer dizer que, a partir de agora, s problemas de adultos?
     - Adultos, adultos, no... Eu chamaria a turma que eu ajudo de ps-adolescentes. As fadas seniores recm-con-tratadas s pegam misses envolvendo o pessoal 
de 18 a 22. Mas  legal mesmo assim.
     - Claro que ! E o que voc veio fazer dessa vez?
     - J, j vou conhecer a escolhida das fadas, uma tal de Babete. Dizem que  doidinha, mas tem um corao gigante. Vai se meter em encrenca quando tentar impedir 
o casamento de um cantor brega famoso, vai parar na televiso e tudo.
     - U, agora voc sabe o problema da escolhida?
     - As fadas seniores vm muito mais bem informadas para as misses do que as juniores. Fada snior  coisa fina, t pensando o qu, minha filha? Tenho uma sala, 
um computador s pra mim, uma estagiria e duas horas de almoo. Isso  mordomia ou o qu?
     Lara saiu da cabine.
     - Que tal essa saia?
     - Pavorosa. Te deixou com a bunda enorme e quadrada -foi suuupersincera Tatu.
     - Voc quer dizer gorda?
     - Ai, que bom que voc tambm achou. Ufa!
     - Gente, pra tudo! Amei voc, Tatu! Adoro pessoas que dizem a verdade. Vou levar a outra, ento.
     Assim que ela entrou na cabine de volta, Tatu virou-se para Luna.
     - Vim aqui s te dar um beijo, mesmo. E dizer que esse vestidinho a no d. Voc t parecendo um balo com ele.
     - , tambm no gostei muito, no...
     - Est pssimo. Diz pra Lara que voc preferiu o vermelho que experimentou antes, muito mais a sua cara.
     - Eu sei, tambm acho, mas ele ficou meio largo nas costas, a ala ficou grande e eu queria que ele fosse um pouco mais curto. E no vai dar tempo pra tanto 
conserto at o dia da festa.
     - Entra na cabine e experimenta o vestido de novo. Fiz uns ajustes nele.
     - Ajustes? Que tipo de ajuste?
     - Joguei nele o ", estilista magnfica", u!
     - Ai, voc no deixou meu vestido com cara de roupa de freira, no, n?
     - Claro que no, boba! Aposto que est do jeitinho que voc queria.
     - Jura?! - empolgou-se Luna, quase sem acreditar. - E se eu der uma engordadinha at o dia da festa? Acho melhor voc ficar por perto para me ajudar... Preciso 
estar linda, perfeita!
     - Luna, querida, voc acha mesmo que vai engordar at a sua festa? Claro que no! Mas, caso isso acontea, fica tranqila, ele agora  um vestido mgico. Engordando 
ou emagrecendo, voc vai ficar perfeita com ele.
     - Caraca! Pra sempre?
     - Caraca! Claro que no! D-! S at o dia do seu aniversrio! Essa magia tem tempo limitado. Se durar mais do que o necessrio, eu acabo voltando para o meu 
antigo emprego. Voc quer que isso acontea? Claro que no, n? Isola! T amando minha vida agora!
     - T bom! T bom!
     - 
     -        O que eu queria era te dar um presente que fizesse voc se lembrar de mim no dia da sua festa.
     Luna deu um sorriso gigante. E se emocionou.
     -        Eu vou me lembrar sempre de voc, Tatu...
     -        Eu tambm... Mas, por favor, corta esse cabelo! Nada de pedir para aparar s dois dedinhos. Mostra a sua cara, que  linda, confia no seu cabeleireiro, 
ele  timo.
     -        Como  que voc sabe?
     - Eu sei de tudo, tolinha. J esqueceu? Nesse momento, Lara saiu da cabine.
     - E a, Lu, vai levar esse a mesmo?
     - Acho que no... Gostei mais do vermelho.
                            
     - Ah, t, ficou lindo, mesmo. Mas talvez tenha que deixar pra apertar, ser que vai dar tempo?
     - Acho que os ajustes eu consigo fazer em casa mesmo.  pouquinha coisa.
     - Que timo! Ento eu vou l pagando a saia. Voc vem?
     - T indo.
     - Beleza. Tchau, Tatu. Prazer.
     - Muito prazer, Lara. Cuida bem da minha amiga aqui, t?
     - Pode deixar! - disse Lara antes de partir na direo do caixa. Luna olhou triste para Tatu, como que se pressentisse o que a fada estava prestes a dizer.
     - Foi bom ver voc, mas... eu preciso ir.
     - No! Fica mais! Tenho tanta coisa pra te contar!
     - No posso, tenho que esbarrar nessa tal de Babete. Dessa vez no vou entrar no sonho do escolhido, fiz um curso intensivo para aprender a entrar materializada 
na vida das pessoas. As fadas-mestras acham que assusta menos.
     - Srio? E como funciona isso?
     - 
     - U... eu me aproximo, puxo assunto, fao cara de sria, digo que tenho um recado importante para dar, sento para tomar um caf e... pimba! Conto logo que 
sou uma fada, no fao nem uma preparao! Sento e falo logo: sou uma fada. Fa-da!
     - Nossa! E d certo?
     - Por enquanto no. J me deixaram falando sozinha trs vezes.
     - Quantas vezes voc tentou?
     - Trs.
     - Ah, t - divertiu-se Luna.
     - Mas essa vai ser minha ltima vez, vou parar com isso. Vou voltar a usar a ttica de entrar na vida das pessoas em sonho,  mais fcil, sabe?
     - Sei. A dificuldade vai continuar a ser convencer as pessoas de que voc  uma fada.
     - Eu sei. Se voc, que  uma pirralha, demorou para acreditar, imagina a turminha com mais de 18? Tem uns que me deixam falando sozinha e vo direto pro mdico, 
procurar remdio para alucinao. Acham que esto malucos, que precisam de um psiquiatra... do o maior trabalho!
     - Imagino!
     As duas se olharam ternamente.
     - Eu queria muito vir aqui, Luna.
     - Pra me ver?
     - Claro! E pra me exibir, n? Queria mostrar que agora sei me materializar. Acho chiqurrimo fada que se materializa. Sempre achei. E eu s posso fazer isso 
agora por sua causa. Obrigada, Luna! Voc me ajudou muito! Ganhei o maior respeito no mundo das fadas, todo mundo comenta como eu fui tima, perfeita, espetacular 
no Caso Lara.
     -        O que mata voc  essa sua modstia - brincou Luna.
     - Como  que vou ser modesta se at entrevista na Fada Soares eu dei? Fiquei importante, Luna!
     - Fada Soares?
     -  uma gordita engraada que tem um talk show na televiso. Na verdade o nome artstico dela  F. F Soares.
     - Ai, que mximo! Que saudade que eu estava disso!
     - Mas sabe o mais legal dessa histria? A promoo e o sucesso s aconteceram porque cumpri a minha misso do jeito que as fadas-mestras mais gostam: sem me 
intrometer no problema. Quanto menos a gente se intromete, melhor. Fiquei apenas de longe, observando tudo. O sofrimento da Lara, sua forma de ajud-la, de abra-la, 
de faz-la sorrir, nem que por um segundo... Foi muito bonito ver vocs duas amadurecerem juntas. Muito bacana ver nascer uma amizade to especial.
     - Imagina, Tatu, voc ajudou muito!
     - Que nada! Meu trabalho foi s convencer voc a ficar amiga dela. O resto coube  pessoa bacana que voc  e ao potencial de ser bacana que a Lara tinha mas 
no usava. Eu podia ter jogado nela o pozinho ", lgrima, sai da!" quando ela chorava, o ", vai embora, dor!" e at o ", riso, chega mais!", para quando ela 
no conseguia sorrir. Mas no fiz nada disso.
     - Jura que voc tinha esses pozinhos e no usou? Nem quando a Lara desistiu de se vingar de todo mundo no colgio, de dizer coisas horrveis para os alunos 
que a agrediram tanto? Duvido que voc no tenha jogado nela um pozinho do tipo ", vingana, vaza!".
     - ", vingana, vaza!"? Fala srio! Que nome esdrxulo  esse? Voc est debochando dos meus pozinhos, ? No precisei usar pozinho nenhum! Alis, fui muito 
elogiada pelas fadas-mestras por deixar o caminho livre para vocs. S no escapei de levar uma bronca por causa da sua espinha. No devia ter feito aquilo.
     - Ai, Tatu, a gente tem tanta coisa pra conversar... Vamos tomar um sorvete! Quero que voc conhea melhor a Lara, ela  muito maneira! E te adorou, viu?
     - Eu sou irresistvel, quem no me adora, Luna? - brincou Tatu. - T abalando geral! U-hu!
     - Voc j era metida, agora est mais metida ainda! - Riu a menina. - Agora, vem c, que vocabulrio moderno  esse?
     - Fiz um intensivo com o pessoal do Departamento de Atualizao de Grias Contemporneas Brasileiras. A Fada Pasquala  muito irada! Superprofessora! Me ensinou 
tudinho! Agora eu estou simplesmente TDP, Tudo de Perfeito.
     - Ai, ai, Tatu! Voc continua a mesma figuraa! Que bom! - Rolou de rir Luna.
     - Ah, no esquea de botar perfume no dia da festa. - Tatu mudou o rumo da conversa. - O Lucas vai e ele adoooora um perfume.
     - Eu vou ficar com o Lucas?
     - Hum... Digamos que voc vai dar umas bitocas nele... , sem-vergonhice!
     -Oba!
     - Preciso ir, Luna.
     - No! No d para ficar at o dia da minha festa? Adoraria ter voc por perto num dia to especial pra mim...
     - No posso... Parabns adiantado, menina linda. Sade, paz e muita alegria na sua vida - desejou, dando nela um abrao apertado. - Aproveite sua festa, sua 
amizade com a Lara, sua famlia, seus amigos... E no se esquea de fazer trs pedidos na hora de soprar a velinha.
     - Mentira que isso adianta!
     - Claro que adianta! As fadas madrinhas geralmente esto perto de seus afilhados nessas horas e elas so timas realizadoras de desejos de aniversrio.
     - Que irado!
     - Alm do mais, sua amiga aqui pode dar uma palavrinha com a sua fada madrinha antes da festa.
     - Voc conhece minha fada madrinha? Como ela ? Maneira? Linda? Extrovertida? Nova? Velha? Tem asa?
     - No posso contar nada. Regra nmero 18 do pargrafo terceiro do Manual das Fadas: 'no contars jamais, para ningum, nadinha de nada sobre fadas madrinhas'.
     - Ah, Tatu! Que manual  esse? Ainda acho que voc inventa essas maluquices!
     - Olha o respeito, garota! No tem maluquice nenhuma! Agora que eu fui promovida, tenho contato com a alta cpula fadai mas no posso sair falando das fadas 
madrinhas por a. D um castigo danado, nem te conto!
     - T, t! No quero que voc fique de castigo de novo. Ainda mais por minha causa.
     - Voc tem que ficar feliz comigo, Luna! Aposto que, sabendo da nossa amizade, a sua fada dinda vai ser bacana com voc e vai atender a seus pedidos. Mas nada 
de pedido impossvel, t?
     - Um deles vai ser te ver mais. Mesmo que seja em sonho. Isso  impossvel?
     - Talvez sim, talvez no... Agora estou trabalhando menos, quem sabe de vez em quando eu no consiga aparecer nos seus sonhos para a gente conversar?
     - No  o ideal, mas j seria maravilhoso! - comemorou Luna. - Presento de aniversrio ver voc, viu? Obrigada pela visita.
     - Obrigada a voc. Por tudo. Se cuida, Luna!
     - Nem mais uns minutos? Para voc bater perna comigo e com a Lara? Ela  patrcia, mas  m gente boa!
     - Seria timo, mas no posso mesmo. Minha misso me chama.
     - Essa misso  de que departamento?
     - Departamento de Roubadas Gigantes. J viu o que me aguarda, n?
     Tatu deu uma piscadela e mandou um beijo carinhoso para Luna. Andou na direo da porta, escolheu um corredor e seguiu pelo shopping. Antes, virou-se para trs
e, pela ltima vez, olhou carinhosamente para a sua menina. Parecendo uma modelo num desfile, a fada causou torcicolo em muito marmanjo. E logo sumiu de vista.
     - Luna! Lunaaaaaaaa! T surda? Estou te chamando h milnios, em que planeta voc tava? - esgoelava-se Lara, j com seu vestido na sacola.
     - Desculpa, La...  que eu no via essa amiga h um tempo.
     - Gente boa ela.
     - Ela  tima.  nica... - disse Luna, com o corao apertadinho.
     - De onde vocs se conhecem?
     - Xiii...  uma longa histria. Um dia eu te conto - respondeu, enxugando uma lgrima pequetita que escapuliu do olho. - Agora preciso pagar meu vestido. Vou 
abalar a Vieira Souto de vermelho, n no?
     No dia de seu aniversrio, Luna e Lara passaram a tarde preparando o local da festa, enfeitando o terrao do apartamento dos Amaral com velas e luminrias coloridas. 
Amora no pde ajudar as meninas. Nos ltimos meses, passava horas interminveis na ONG que criara para ajudar e apoiar parentes de brasileiros presos no exterior. 
Fazia questo de cuidar de perto de tudo e de dar s pessoas carinho, amor e abraos, artigos que, aprendera, so de primeira grandeza.
     Marcela, a me de Luna, ficou incumbida de ajudar na decorao. Sua relao com a filha no podia estar melhor. Luna finalmente voltara a ocupar o posto de
boa filha que tanto prezava. E ainda por cima tinha virado uma aluna melhor. A amizade com Lara rendeu frutos at no colgio, j que a patricinha era inteligente
e sabia explicar como ningum.
     O pai de Lara tambm mudou depois do episdio. Ultimamente reservava dois dias da semana para fazer cirurgias beneficentes para a populao de baixa renda.
Milena, agora, estava decidida: estudaria para se tornar diplomata. Gostava de viajar, de conhecer outras culturas e ainda era louca por lnguas.
      noite, luzes coloridas e uma imensa lua cheia que flutuava sobre o mar tornaram a cobertura de Lara praticamente um cenrio de filme. Luna danou, ao som
do DJ, suas msicas preferidas, ficou com Lucas, sua nova paixonite, e viu uma estrela cadente cortar o cu de Ipanema bem na hora do bolo. Uma estrela cadente diferente 
das outras. Grandiosa, longa, superbrilhante. Em seguida vieram gritos de uau! e aplausos entusiasmados e embasbacados dos convidados. Para ela e para o espetculo 
da natureza que acabaram de ver.
     Luna sabia que aquele momento especial tinha o dedo de uma certa fada. Era a cara dela uma surpresa de alto nvel. Lara se aproximou da amiga aniversariante
e deu nela um abrao esmagado, demorado, gostoso. Que presento Tatu havia deixado. Para as duas.
     Linda em seu vestido mgico, Luna, ainda abraada com Lara, olhou para o cu e teve certeza de que sua fada preferida, a fada que transformara aquele ano no
ano mais surpreendente de sua vida, estaria sempre por perto. E sorriu feliz.














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Thalita Rebouas - Uma Fada Veio Me Visitar

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